Sou fanático por café. Chego a tomar uns quinze a vinte por dia. E não adianta me tentar convencer que é demais, que faz mal tanto café. Sou daqueles que acha que mal faz não tomá-lo.<br>O café é o fluido do despertar matinal. Parece que nada rola sem ele. Se não tomar logo cedo a primeira dose, o cérebro não vai funcionar. O dia não vai começar. Não adianta insistir. Tem logo que tomar essa primeira de uma série interminável de doses durante as horas do dia.<br>A primeira dose é a que parece despertar os neurônios para a rotina diária. Joga logo na circulação aquela quantidade mínima de cafeína para fazer as atividades corporais saírem de sua inércia noturna.<br>Já as outras doses adicionadas durante o dia através das inúmeras xícaras de cafezinho tomadas espaçadamente são doses de manutenção, conservando sempre um teor mínimo de cafeína no organismo, teor esse imprescindível para o bom andamento das atividades. Ou vai ver já estou condicionado, tipo efeito Pavlov, ou, até radicalizando, digamos, viciado no cafezinho. E quem não está?!<br>Mas o café, independente da importância que tenha na funcionalidade do meu corpo, sempre fez corpo na funcionalidade da economia da nossa terra. Foi ele o grande ouro negro que impulsionou o crescimento do nosso Estado e da nossa cidade. E essa história já foi cantada em prosa e verso, na música, no cinema, nas novelas, nos murais da cidade e etc.<br>São Paulo não seria o que é hoje não fosse o café. Todos dizem isso. Um velho chavão! E temos mesmo que enaltecer esse saboroso fruto, tão apreciado mundialmente, que enriqueceu muita gente em muitas terras.<br>Deixe-me dar uma pausa pra saborear mais uma xícara de café, que já está na hora. Mas esta eu vou mesmo é tomar lá no BA, que se modernizou. Acompanhou o ritmo da evolução das coisas.<br>Até o Ari (porque até?) não quer mais saber de passar o café no saco, como fazia o meu avô. Eu que via meu avô misturando o café moído com o açúcar. Duas medidas de café para uma de açúcar. Misturava bem na vasilha de alumínio grande (a turma tomava muito café). Aquela vasilha amassada de tanto tombo no chão e tanto uso, e habilmente desamassada por meu avô. Servia direitinho para colocar as medidas certas dos componentes do bom café do meu avô. E acho que a vasilha era tão velha quanto ele. Mas os dois, imprescindíveis. Eram parceiros! Mais que parceiros, cúmplices! Inseparáveis, como o café e o açúcar do café dele!<br>E depois de misturados, café e açúcar, num amálgama, recebiam a água fervente vinda de outra vasilha tão velha quanto a primeira. Eu via ali a perfeita união das raças. Era o preto do café com o branco do açúcar. As partículas de cores distintas devidamente misturadas, homogeneizadas, a ponto de não se distinguir nenhuma das cores. Estavam ali as raças negra e branca perfeitamente unidas, na mais absoluta síntese do povo brasileiro. Pelo menos na minha visão, fruto dos preceitos cristãos ensinados pela minha mãe.<br>E a água fervente tratava de unir mais ainda as partículas. Ao verter a água sobre a vasilha do pó, via meu avô cumprindo literalmente a liturgia do cargo. Parecia um sacerdote benzendo as duas raças unidas pelo liquido santo da água fervida.<br>Então derramava cuidadosamente aquela mistura toda no saco, que imediato se enchia como o úbere de uma vaca e fazia passar por seus poros apenas o liquido negro mágico, irradiando o cheiro agradável do café por todo o ambiente.<br>E aquele aroma entrava por nossas narinas, avenidas largas de acesso de cheiros e sensações, como que anunciando o início de mais um dia de atividades, no meu caso as escolares, que implicava na caminhada até o ponto de ônibus para pegar o primeiro, rumo ao meu colégio no centro da cidade. E assim eram todas as manhãs. O café chamando a todos para as obrigações diárias.<br>Mas, mais uma golada na xícara… Saudades do meu avô e seu café.<br>Me rendi em definitivo ao café do Ari. Que jeito! Na sua mais nova aquisição do bar: a máquina italiana Saeco. Faz um café muito diferente do café do meu avô. Mais nobre e sofisticado. Porções exatas e unitárias. Não se mistura mais com o açúcar, que até mesmo pode ser substituído, rejeitado. Tá vendo, só?! O café, quem diria, ficou individualista. Não vem mais com seu velho companheiro. Agora é assim, cada um por si. Cada medida uma xícara!<br>Que saudades do café do meu avô!<br><br>e-mail do autor: [email protected]