Morávamos em São Paulo, moramos na Vila Paiva na Rua Caçador, depois moramos em outro bairro perto na Rua Laureanos, era uma verdadeira ladeira, morávamos bem no começo dela, depois mudamos para a Vila Guilherme, na Rua Maria Cândida.
Na Vila Guilherme não era casa de fundos, era uma casa bem antiga que ficava na esquina, a porta da cozinha era na Rua Joaquina Ramalho e a da sala na Rua João Ventura Batista, uma casa bem velha, mas grande e espaçosa. Todos os dias quando éramos crianças, no dia que dava certo de estarmos em casa ás 3h, minha mãe costumava fazer algum suco ou café para a gente tomar e comer com qualquer coisa que tivesse. Quando já estava com 12 anos por aí, era sempre eu ou minha irmã que inventava o que ia comer.
De vez em quando eu fazia água com açúcar e chamava de guarapa e tomava comendo pão quando tinha. Às vezes era pão com óleo, era tão gostoso, fazia um buraquinho no pão e colocava óleo, era muito bom, escorria entre meus dedinhos e descia pelo braço.
Éramos seis irmãos, todos esperando a hora do café quando dava certo de estarmos todos em casa, meu prato preferido era ovo frito, bem molinho, depois de frito misturava farinha de milho e comia aquele virado, tomando café, só que tinha que repartir um pouco para cada e dava briga ainda, porque era tão gostoso e os ovos eram poucos. Fazia até bolinho de chuva, bolinho salgado, sem leite mesmo e o sabor era muito bom, só que o bolinho ficava murcho, mas criança, já sabe, não é, comia tudo.
Tempo bom, a gente era feliz e não sabia, de cinco irmãos só sobraram dois para mim, o Jacob e o Gilberto, os outros três faleceram muito jovens e de mortes trágicas. Só restam as lembranças e a saudade que ficou gravada em minha memória. Sempre que tenho oportunidade conto sobre este café que a gente fazia e tomava quando criança, chamava de café, mas a maior parte das vezes era água com açúcar.
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