Cabeça de Porco era o apelido do seu Antonio, que tinha um bar na Rua do Porto esquina com a Rua da Ponte, Itaim Bibi, no início dos anos 1950. O bar ficava um metro e meio acima do nível da rua. Seu Antonio era marido de dona Emilia, e pai de Toninho, também conhecido como cabecinha.
Cabeça de Porco era um sujeito nervoso por natureza, muitas vezes violento e um dos maiores bocas sujas do Itaim. Era também considerado um dos maiores cafajestes da zona sul.
Por esse perfil, dona Emilia sofria muito, com o jeito violento do marido, assim como o filho Cabecinha. Surras homéricas ele levava por um pouco de traquinagem que viesse a fazer. Certa vez por bater a charrete de leve numa árvore, apanhou.
Ele era assim. Não media suas palavras, a quem quisesse falar. Do Itaim mudou-se para o Brooklin Novo, Rua Texas esquina da Rua Arauna. Era um bar dos mesmos moldes daquele que tinha no Itaim.
Dona Emilia continuava cozinhando para os clientes, fazendo todo tipo de bolinhos de bacalhau, coxinhas e outros quitutes. Cabecinha continuava apanhando por pouco que fizesse. Um dia depois de apanhar, chorando, ele disse que ia sair de casa. No que sal mãe lhe disse: se sair vá para um lugar que seu pai não o ache, porque senão ele te mata. Outro que estava ao lado, o Tito filho de seu Sanches, chorava por outro motivo. Era filho de pai de origem espanhola, e pelo fato de ele estar namorando e ia se casar com uma moça que não era mais virgem estava sendo expulso de casa. Eta anos ruins aqueles.
Cabeça de Porco era Palmeirense até de baixo d´água. Em seu bar tinha um aparelho de televisão. Aos domingos à tarde, era uma festa. O bar ficava cheio, com gente até pra fora, para assistir aos jogos que eram televisionados direto do Pacaembu.
Um dia (1952), o Palmeiras estava perdendo do Corinthians. E os Corintianos que eram muitos, estavam numa tremenda gozação. Cabeça de Porco que normalmente tinha o rosto avermelhado talvez por beber vinho acima da conta, ficou vermelho de raiva. Ai não deu outra, aos gritos foi falando: seus maloqueiros de merda, vocês vem aqui apenas para assistir o jogo sem tomar nada e ainda vem gozar com a minha cara? A gargalhada foi geral. Cabeça de Porco não perdeu tempo, pegou uma garrafa de cerveja e mandou bem no meio da televisão, foi um estouro bem grande, sem contar com a fumaceira que saía por todos os poros do aparelho. Quando mesas iam ser jogadas para cima a correria foi geral e o bar foi fechado.
No dia seguinte, dona Emilia varria um monte de vidros proveniente da tela e das válvulas todas pretejadas. O bar foi vendido para seu Batista, um português muito legal. Cabeça de Porco foi para Santo Amaro, mesmo quando morava no Itaim tinha uma forte ligação com aquele bairro, devido ao seu lado “religioso”. Ele fazia parte das romarias anuais, de Bom Jesus de Pirapora. É bem verdade que rezar ele não ia. Bebia que nem uma vaca, e jogava baralho, os três dias em que a cidade via um impertinente romeiro que destoava dos demais. Sem contar que dava muito trabalho para seu cavalo porque era um cara bem pesado.
O bar que era palco de muita confusão, depois de vendido, ficou uma maravilha, cadeira na calçada, uma clientela já diferenciada. E com dona Maria, esposa de seu Batista, uma portuguesa que fazia maravilhosos bolinhos de bacalhau.
Mas, bom mesmo, eram as duas filhas de seu Batista. A Olga e a Elvira, uma mais bonita do que a outra.
e-mail do autor: [email protected]