Brooklin Novo

Fomos morar lá em 1951. Estávamos bem na divisa do bairro da vila Olímpia. A beira do córrego da traição. Naquele 1 de abril de 1951, contava-se nos dedos as casas que tinha por ali. Estávamos acostumados no Itaim, e para adaptação não foi muito fácil. O bom para mim que tinha 12 anos era o monte de terrenos baldios para se jogar bola, brincar de mocinho, e outras brincadeiras. Mas descobrimos muitas coisas que no Itaim não tinha. Não era qualquer um que tinha carros. Muitas coisas se faziam com carroças. E para tanto tinha que ter cavalos, ou burros para puxá-las. Era o verdureiro, o tripeiro (aquele que vendia miúdos de boi, e também carne, só que eram em carroças especiais, com um tipo baú, aluminizado por dentro e com boa higiene). O peixeiro é que vendia o produto em carroças normais. Sendo assim os cavalos soltavam fezes que chamávamos esterco, e que servia para adubar as hortas, das casas coisa muito normal nos terrenos que a companhia de terrenos e construções tinha loteado. Quem mais tinha comprado terrenos lá eram portugueses, normalmente dois ou mais lotes para revender. Eram em sua maioria, padeiros que revendiam pães em bicicletas com uma caixa de madeira no suporte. Já no início dos anos 1960, era uma lambreta com a caixa bem maior. Tinha também inúmeras chácaras por lá. Tinha também os currais onde se tirava leite na hora. O curral do Totó, era bem defronte nossa casa na rua Bugio. (nome que permanece até hoje). Já pertencendo a Vila Olímpia. Toda à tarde eu ia com uma panela e pegava o leite recém saído do ubre da vaca. Mas o que nos dava alguns dividendos mesmo, era o esterco. Eu catava e depois vendia para os chacareiros. O esterco de cavalo era o chamado "exportação", eles diziam que o esterco de vaca não era bom. Mas eu levava para a horta de casa e surtia um bom efeito. É lógico que meu pai pensava que era de cavalo. Tinha duas maneiras de vender o esterco, em natura, ou seja, como saia do animal, ou então batido ele ficando bem fininho, ai era mais caro e se o chacareiro fosse português ou in natura era o que eles queriam (mãos e vaca). Era só deixar secar e depois com aquele garfo (de pegar capim) ir batendo ate ele ficar bem diluído. Outra maneira de ganhar um dinheirinho era catar lata, vidro, alumínio (o que pagava mais) latas de óleo também tinha um preço especial. Desde que não estivessem amassadas. Como estavam chegando muitos estrangeiros com belas casas, nas ruas Texas, Kansas, Nebraska, devido a Sociedade Hípica Paulista, que circundava as ruas Guaraiuva, Quintana e Porto Martins, tínhamos outro meio de ganhar dinheiro. Catar Funcho. Este era o nome popular do Cogumelo. Que surgia na terra de uma hora para outra, em forma de guarda chuva de cor branca, meio bege. Era só chover de madrugada e sair o sol pela manhã que o mato estava cheio dessa iguaria, tão consumida pelos estrangeiros. Notadamente Alemães. Era o que mais dava em termos de dinheiro. Mas procurava-se sempre uma outra forma de ganhar dinheiro, como tinha a fábrica de esponja de aço (Bom Bril) na rua Nova York esquina da Avenida Central da Monções (Padre Antônio José dos Santos) a gente pulava o muro dos fundos e pegava os restos de palhinha. Daí fazia varias unidades e ia vendendo. Sabe que as mulheres compravam. Principalmente aquelas que eram viúvas normais e as que eram viúvas de maridos vivos. (rsss) Foi a iniciação sexual de muitos meninões.
A principal rua do Brooklin, pelo menos a mais famosa era a rua Brejo Alegre, um nome sugestivo. Quando chovia ela fazia jus ao nome. Chamávamos ali de esmaga sapo, um verdadeiro charco de terra preta, que atolava os poucos carros que por ali passavam. Até carroça encalhava. Ouvia-se os sapos chiarem. Numa verdadeira orquestra afinada. Então o negócio era ficar dentro de casa, a luz de lampião ou lamparina, pois não tinha luz elétrica que só veio em 1953, devido uma conscientização dos moradores numa coleta de dinheiro depois de se fazer um orçamento na Ligth de 53 mil cruzeiros. Foi o quanto custou para esticar os fios da avenida Central (Coronel Joaquim Ferreira Lobo, mais tarde, Dr. Cardoso de Mello) da Vila Olímpia, para a Rua Arandu e demais ruas como a Brejo Alegre, Texas, Kansas, Marques de Cascais, Ribeiro do Vale, Conceição de Monte Alegre e outras. Foi uma festa a vinda da energia elétrica. Ai ficava mais fácil ficar em casa. Ou vir rádio. E por falar em rádio, tinha um programa na radio Nacional chamado A FELICIDADE BATE A SUA PORTA. Que ia ao ar aos domingos 19 horas. Um bairro era sorteado e uma viatura da rádio percorria o bairro uma rua era sorteada e posteriormente um número. No estúdio ficava Raquel Martins. Na viatura percorrendo as ruas, Nelson Oliveira. E depois a cantora Hebe Camargo. Quando o Brooklin foi sorteado todos nos ficávamos na expectativa de ver a estrela de São Paulo fechar o programa cantando. A rua sorteada foi a Nebraska. Depois de percorrer do início ao fim da rua eles ficavam sabendo qual o primeiro número e o ultimo. Ai fazia o sorteio da casa que seria premiada, que tivesse os produtos do patrocinador do programa. UFE (união fabril exportadora) produtora do sabão Rio e sabão Platino e outros produtos de limpeza. Ai veio quem mais a gente queria ver, Hebe Camargo. Uma morena linda, cabelos escuros até a cintura bem diferente da grande dama de hoje da televisão. Pelo menos uma musica que ela cantou, eu me lembro. GAROTA. "Garota do meu coração. Você é a grande sensação" e por ai a fora. Quando queríamos nadar, íamos ao rio pinga. Era um córrego de águas límpidas, tinha uma ponte de ferro de 50 cm de largura de onde saltava se na água. Hoje é a avenida Luiz Carlos Berrini. Uma miniatura da avenida Paulista. Que foi desbravado por Carlos Bratck, (não sei errei o nome). No início dos anos 1980 ele comprou praticamente toda a rua e foi construindo prédios. (Falava-se que era financiamento vindo de paises árabes). Lembro-me me que ele como engenheiro arquiteto, plantou árvores por toda extensão da avenida. Como não pediu autorização da prefeitura foi multado. A repercussão foi tão grande, que a partir de então o prefeito Olavo Setúbal assinou um decreto que podia-se plantar árvores sem pedir licença à prefeitura. Em 1986 depois de 36 anos de Brooklin me mudei. Afinal a beira do córrego da traição ficou sendo a avenida dos bandeirantes a partir de 1971. Muitos caminhões, carros, muita poluição, tanto sonora, quanto do ar já irrespirável e muitos atropelamentos vários em frente minha casa, o último um garoto que corria atrás de balão.