Brincadeira de índio

Tudo teve início quando meu irmão Dirceu começou a freqüentar um terreiro de umbanda. Em uma noite de seção espírita, baixou um caboclo e pediu a meu irmão que fosse na mata escolher um pau, a fim de fazer um arco e flecha para presentear o espírito de um grande chefe índio da tribo dos Tupinambás.

O pedido não poderia ter sido feito à pessoa mais adequada, pois o Dirceu, que teve sua infância na fazenda em Mococa, adorava explorar o mato e sabia como ninguém preparar um ótimo arco.

Fui convidado para ir com ele ao "Calipal" (uma enorme área de plantação de eucaliptos), que ficava entre Itaquera e Arthur Alvim, onde hoje está a Cohab. Lá entre os eucaliptos ainda havia clareiras, onde a mata nativa formava capoeiras. Adorei o convite, pois gostava de andar pelo mato e, principalmente, pela oportunidade de estar com o Dirceu, que era meu maior ídolo.

Dirceu conhecia bem aquele mato e foi direto a uma capoeira perto da Pontinha Preta, uma pequena lagoa de águas cristalinas com argila preta no fundo, que ficava exatamente onde hoje está a estação do metrô Itaquera, e lá encontrou alguns arbustos de Pau D'arco, uma pequena árvore de um único ramo principal, bastante flexível, que normalmente era utilizada para fazer arco de peneira.

Escolheu dois arbustos e cortou-os bem rente ao chão, para obter maior aproveitamento do caule. Disse que escolheu dois, pois, ao fazer o arco, poderia ter problema com a madeira e assim estaria mais seguro.

Aproveitamos a caminhada de retorno para casa e passamos na chácara do seu João das Vacas, pois lá havia um bambuzal de taquara da índia, cujas varetas, por serem finas e retas, seriam ótimas para preparar as flechas.

Chegamos em casa carregados com os arbustos de Pau D'arco e com um feixe de taquara da índia. Dirceu, então, deu início à fabricação do arco e eu sentei ao seu lado e passei a admirar sua habilidade em esculpir a madeira com seu canivete. Após umas quatro horas de pura técnica, lá estavam dois arcos, para dar inveja a qualquer índio.

Os arcos eram grandes em relação ao meu tamanho – tinham, aproximadamente, um metro e meio o maior, e talvez um metro o menor. Lembro bem que o arco maior tinha uma cabeça de índio esculpida em uma de suas extremidades.

As flechas foram feitas com as taquaras da índia, tendo em uma extremidade as penas do Patão (aquele mesmo que voou sem a cabeça na primeira história) e na outra, como ponta, ele havia colocado prego de noiva (prego grande utilizado para fixar vigas de telhado), enrolados por fio fino de cobre (aquele utilizado para enrolar bobinas de motor).

A grande surpresa ocorreu quando ele pegou o arco menor e uma flecha e falou que eram presentes para mim. Não pude acreditar! Eu teria um arco de índio de verdade, nenhum moleque do bairro jamais teve um igual.

Meu irmão então me deu algumas aulas de como atirar corretamente com aquele arco. Para ele era muito fácil; para mim, a grande dificuldade era envergar o arco. Minha força era suficiente para envergar apenas um terço da capacidade do mesmo, o que já atirava uma flecha a uns cinqüenta metros de distância.

Treinamos nas bananeiras no fundo de nosso quintal. Eu não queria acreditar quando acertei a bananeira e a flecha transpassou o tronco de um lado para o outro. Em poucas horas de treino senti-me o próprio Arqueiro Verde, personagem de história em quadrinhos que eu adorava ler.

Logo escureceu e eu tive que ir para dentro de casa. Coloquei o arco e flecha debaixo de minha cama e não pensava em outra coisa senão no dia seguinte, quando mostraria meu novo brinquedo para o Giba (Giba, hoje meu compadre, foi meu grande companheiro de infância, e sobre nossas traquinagens seria necessário escrever todo um livro), saindo pela redondeza disparando minha flecha e exibindo-me para a molecada.

Passei logo cedo na casa do Giba e fomos para o Campo do Falcão testar a distância que poderíamos arremessar as flechas. Lá no campo, encontramos com o Paganada, apelido do Cláudio Pagane. Paganada era um moleque muito forte. Tinha dez irmãos, sendo ele o do meio, abaixo do Zé Pagane, e um ano mais velho que o Toninho.

Logo que viu o meu arco e flecha, ele, de imediato, começou a depreciar meu brinquedo (era mais uma arma do que um brinquedo), dizendo que o arco e flecha que ele tinha na casa dele, feito de vareta de guarda-chuva, era melhor.

Lancei o desafio e ele foi para casa buscar seu equipamento. Eu era magro e fracote, mas rápido de raciocínio, principalmente para aprontar. Enquanto ele não retornava, mandei o Giba ir do outro lado do campo e, de olhada, medi a distância que imaginava que seria capaz de arremessar minha flecha, e nesta distância pedi ao Giba para fazer uma cela (círculo riscado no chão) de um metro de diâmetro, e fiz também uma cela do mesmo tamanho onde eu estava. Entre eu e o Giba, imagino que havia uns cinqüenta metros.

Tão logo o Paganada chegou com sua flechinha, eu fui dando as regras do desafio, que eram: cada um deveria ficar numa cela e atirar a flecha no outro, que poderia desviar da flecha, porém sem sair da cela. Ele aceitou as regras e foi para a cela onde estava o Giba, e eu, para dar uma de bom menino, dei a ele a prioridade de atirar primeiro.

O duelo estava armado. Pude observar quando ele colocou a vareta de guarda-chuva no arco, apontou para mim e atirou. A flecha descreveu uma parábola e caiu de ponta fincada no chão, a uns vinte metros a contar da cela dele. Ocorreu o que eu havia imaginado. Foram vários os arcos que eu tivera feito de vareta de guarda-chuva e estava seguro que não atiraria uma flecha a mais de vinte metros.

Armei meu super arco com a flecha de taquara da índia e ponta de prego de noiva. Estiquei o arco o mais que pude, fiz pontaria e disparei. A flecha subiu e, ao projetar sua curva, percebi que ia cair direto na cela do Paganada. Neste momento, comecei a ficar preocupado e rezar para a flecha não acertar o alvo, pois já sabia do estrago que ela tinha feito no tronco da bananeira.

De nada adiantaram minhas preces: a flecha caiu direto no Dinho, que, como grande machão, não saiu da cela, apenas encolheu o corpo protegendo a cabeça com as mãos. A flecha entrou na coxa esquerda do moleque e atravessou a perna de um lado para o outro, como se fosse o tronco da bananeira.

De longe ouvi seus gritos dizendo: “Zé, pega aquele f. d. p., ele me acertou e vou morrer”. O Zé me deixou de lado e tratou de socorrer seu irmão, enquanto eu e o Giba disparamos em fuga e fomos nos esconder lá na Pontinha Preta.

Mais tarde, fiquei sabendo que o Dinho teve que ser levado às pressas para a farmácia do Seu Barreiros, que precisou cortar a flecha e retirá-la pelo lado de trás da coxa. Foi necessário dar pontos tanto na entrada do buraco como na saída, e o Dinho teve que tomar injeções contra tétano.

Naquela tarde retornei para minha casa quase perto da hora do jantar. O Giba foi direto para a casa dele e nem quis passar em casa para assistir as aventuras do Capitão Sete. Minha mãe já estava me esperando lá no fim das escadas do portão com meu arco na mão (na fuga, eu havia deixado o arco lá no campo).

Foram muitas as surras que levei em minha infância – creio que, na média, era uma por dia -, porém aquela foi talvez a maior de todas. Apanhei feito cachorro, com o próprio arco, e as marcas ficaram em meu corpo por pelo menos uns dois meses. Sobrou também para meu irmão, o Dirceu, que levou uma dura do meu pai e foi quem teve que pagar todas as despesas do tratamento do Paganada.

Muitos anos depois deste ocorrido, quando já beirava meus dezessete anos, em um treino de boxe na academia da Sociedade Amigos da Vila Corberi, o Dinho acertou um direto de esquerda em meu nariz, que até hoje é torto, e quando eu recobrei os sentidos, ouvi-o dizer em tom bem forte e claro: "Esta é pela flechada".

O Cláudio Pagane hoje é oficial da Polícia Militar e trabalha no trânsito. Um dia, passando pela Radial Leste, ele me viu e sinalizou para que eu parasse. Batemos um bom papo e ele me confidenciou que lembra de mim sempre que o tempo vai virar para chuva, pois até hoje, nestas ocasiões, seu ferimento começa a coçar.

Nunca fiz um arco para meu filho brincar de índio, mas não tenho dúvida alguma de que se um dia tiver um neto, nós iremos à mata cortar um Pau D´arco e faremos juntos um arco, igual aquele feito pelo Dirceu.

Marcos Falcon Contador de Estórias

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