Quando vejo minha filha em frente ao computador mexendo com agilidade no teclado penso como as brincadeiras infantis mudaram nos últimos anos. Hoje em dia a criançada só quer saber dos jogos eletrônicos, vídeo-games, playstation e congêneres. Na minha época de criança, que não faz tanto tempo assim, as brincadeiras eram outras. Era a fase da inocência de jogar bolinha de gude, rodar pião, empinar pipa e, claro, bater bola na rua com a molecada. Brincávamos despreocupados. Os únicos objetivos eram diversão e a alegria de ser criança. Ah, que saudade da minha infância. De tempos em tempos um brinquedo tinha a sua vez. Havia a fase da pipa, a dos piões, entre outros. O que eu mais gostava eram os carrinhos de rolemã. Feitos com pedaços de tábua fixas sobre quatro rolamentos os carrinhos tomavam conta das ruas e eram inevitáveis os acidentes. Quando menino morava lá na Vila Matilde, conhecida por dar nome à uma das mais famosas escolas de samba da capital. A minha rua era uma ladeira bastante íngreme e quem a descesse num carrinho de rolemã era considerado um grande piloto. Algo como descer as Cataratas do Niagára num barril. Um dia, junto com um primo, construí um super carrinho cujo objetivo era desafiar a assustadora ladeira. O bólido, que mais parecia um avião, impunha respeito aos outros moleques. Pintamos, colocamos número de carro de corrida, adereços e afins. Os freios consistiam em duas alavancas pregadas na parte de trás que, uma vez puxadas, encostavam nas rodas traseiras e paravam o carro. E chegou o dia tão esperado. Descer a ladeira e sair vivos da aventura. A visão do alto da rua era mesmo de meter medo. Uma curva para a direita e outra para a esquerda culminando em 500 metros de ladeira abaixo. Uma espécie de S do Senna, nesse caso de Sandice. Mas não tinha como desistir. Se caso desistíssemos seríamos considerados os covardes do bairro. Eu seria o piloto e meu primo iria atrás para comandar os freios. Era um domingo à tarde, dia de pouco movimento, mas de qualquer forma o risco de colidir com um automóvel existia. Me posicionei na frente do carro e meu primo sentou atrás rezando e fazendo o sinal da cruz. Munidos apenas com nossa coragem, pois não tínhamos nenhum equipamento de segurança iniciamos a descida. O carrinho foi ganhando velocidade passamos a primeira curva à direita com maestria com a galera gritando empolgada. Vencemos a curva à esquerda. Beleza. Agora era descida até o final. Mas para nossa infelicidade e parafraseando o poeta: havia uma pedra no meio do caminho. Não tive tempo de desviar. O carro deu um solavanco e capotou. Meu primo rolou por cima de mim e fomos juntos parar na calçada com rolamentos para todo os lados. Resultado da tragédia. Tive várias escoriações nos cotovelos, joelhos e um corte na cabeça. Meu primo ficou pior, além de um rasgo na perna, quebrou o braço direito em dois lugares. Não é preciso dizer que nossos pais nos censuraram e ficamos de castigo por vários dias.