Brás, quantas saudades você me trás…

Eu sou a Carmem, nasci em 1932. Lendo relatos neste site sobre o Brás, mostradas pela minha filha Edna, resolvi também contar um pouco da minha história sobre este bairro maravilhoso, principalmente sobre a Rua Caetano Pinto, onde passei minha infância e da qual guardo boas lembranças.

Apesar de ter nascido em São José do Rio Preto, não lembro de mais nada de lá, pois vim para São Paulo muito pequena. Tinha apenas um ano de idade. Meus pais e avós eram imigrantes espanhóis e vieram para o Brasil em 1922 para trabalhar numa fazenda do interior de São Paulo, onde eram tratados como escravos.

Por isso, depois de algum tempo resolveram fugir de lá e, como na fazenda havia muitos cachorros bravos, meus pais e avós juntaram carne para calar a boca dos cachorros e poder fugir. Fugiram de madrugada e chegando a estação de trem encontraram outras famílias que também haviam fugido.

Em 1924, meus pais e avós já moravam em São Paulo, na Rua Caetano Pinto no bairro do Brás e trabalhavam numa fábrica, da qual tiveram que sair às pressas, pois, estourava a Revolução de 24 havendo tiroteio e saques a armazéns.

Como a Revolução se agravava, o governo colocou trens a disposição para quem quisesse sair se São Paulo. Meus pais e avós resolveram, então, ir para Campinas. Antes de saírem, colocaram todos os mantimentos que tinham no chão e despejaram palhas de colchões por cima.

Em Campinas, foram muito bem tratados pelo povo local. Ficaram alojados num teatro, onde dormiam no chão. Algumas senhoras até ofereciam suas casas para minha mãe dormir já que estava grávida, porém ela, mesmo dormindo no chão, permaneceu no teatro solidária a sua família.

Terminada a Revolução, voltaram para São Paulo encontrando muitas casas destruídas e saqueadas, mas em sua casa os mantimentos que haviam escondido, estavam intactos. Passado algum tempo, resolveram ir para Nova Granada em São José do Rio Preto onde permaneceram até 1933.

Após este período foram, então, novamente morar na Rua Caetano Pinto, num cortiço de cinco famílias (espanholas e italianas), mas era como se fossemos uma só família. Havia somente um banheiro para todos, porém eu, como era criança, nem me dava conta desse desconforto.

Tinha muitas amiguinhas. Brincávamos juntas e, lembro-me que certa vez fizemos uma festinha de batizado para as bonecas. Duas irmãs italianas, a Linda e a Roma que moravam junto conosco no cortiço e que me tratavam como filha. Fizeram porpetas para a festa e fomos à igreja do Brás onde o padre benzeu as bonecas.

Outra boa lembrança é da Festa de Nossa Senhora de Casaluce que ocorria todo ano na Rua Caetano Pinto. A rua ficava linda, toda enfeitada. À noite as pessoas ficavam passeando ou sentadas nas calçadas e nós, crianças, brincando e comendo as delícias que vendiam na festa.

Falando das Delícias do Brás, me recordo também das pastelarias da Rua Rangel Pestana, onde eu e minhas amiguinhas íamos comer pastéis todos os dias e eu, que era gordinha e gulosa, não deixava por menos. Comia três de uma vez. Os pastéis eram deliciosos, comparados aos de agora.

Outra boa lembrança foi ter conhecido o grupo musical Demônios da Garoa. Minhas irmãs, que eram mais velhas que eu, tinham amizades com eles e sempre me levavam com elas quando os encontravam no Largo da Concórdia, onde cantavam. Recordo-me mais do falecido Arnaldo que era muito simpático e estava sempre rindo.

São tantas as lembranças. O jardim de infância, os cinemas aos domingos, os bondes, os churros da Rua Carneiro Leão e principalmente a tranqüilidade e segurança que tínhamos. Meus avós tinham uma charutaria na frente do cortiço, onde vendiam cigarros, materiais escolares entre outras coisas. Como a casa da minha avó ficava junto da charutaria, ela deixava algumas vezes o comércio sozinho e quando chegava um freguês ele mesmo chamava para ser atendido.

Vivi no Brás somente até os oito anos de idade, e apesar de estar atualmente com 77 anos, ainda me lembro com carinho de vários fatos e de todos que convivi nessa época, inclusive de minha amiguinha chamada Ida. Não dá para contar tudo o que vivi na minha infância.

É muito bom poder compartilhar um pouco da minha infância que é parecida com a de muitos imigrantes que viveram no Brás. E que ajudaram a construir a história da nossa cidade.

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