Tenho uma “foto” na lembrança de uma noite estrelada e de minha família andando numa estradinha escura na Vila Maria, ao lado da Nadir Figueiredo. Estávamos voltando para casa após um dia todo na casa dos meus tios Nati e Nelson e seus cinco filhos, meus primos Leila, Eunice, Miguel, Nelsinho e Regina. Vínhamos todos cantando, rindo de tudo, e as crianças corriam na frente brincando de pegador. Era o meu passeio preferido.
Meus tios moravam numa casinha humilde e pequena para o tamanho da família. O coração, porém, era grande. A gente sabia que ao chegar lá, após dois ônibus e muita expectativa, um cheiro bom de esfihas e quibes assando nos receberia, pois Tia Nati era uma cozinheira fabulosa cuja especialidade era quitutes árabes. A casa era bagunçada e feliz, com livros e revistas espalhados por todo o lado e crianças correndo – os da família e os de fora, que apareciam e ficavam para almoçar.
As casas eram do conjunto da Nadir Figueiredo, alugada para funcionários da fábrica, como o meu tio. Eram muitos prédios com passagens entre eles, pelas quais corríamos, e lugares onde podíamos nos esconder. Saíamos para a rua após o almoço e ficávamos por lá até à noite. Ninguém se preocupava em nos procurar, pois todo mundo conhecia todo o mundo e não havia perigo. Ainda me lembro muito bem daquelas noites, o cheiro de verão no ar, as luzes amareladas das lâmpadas nas ruas e aquela multidão de crianças, a maior parte amigos dos meus primos.
Os adultos sentavam às portas tomando cerveja, ou simplesmente conversando, alguns em cadeiras, outros nos degraus das escadas. E nós vivíamos a nossa infância com abandono.
Às vezes eu ficava para dormir, geralmente junto com a minha prima mais velha. Gostávamos de escrever histórias em cadernos e ficávamos muito tempo escrevendo juntas, descrevendo os personagens e o enredo. Lá fora, a noite era quieta, as crianças da rua já estavam em suas casas, só se ouvia um cachorro latindo ao longe de vez em quando. Nós também fechávamos os nossos cadernos e íamos dormir.
Alguns anos depois fui a um bailinho ali na sede social do Conjunto, levada pelo meu primo, e apresentada aos rapazes locais, com os quais eu já havia brincado na rua em anos passados. Agora éramos adolescentes, cada qual no seu cantinho, olhando de esguelha uns para os outros. Mas eu gostava mesmo era do meu primo!
Aquelas ruas, aquelas brincadeiras e aquele tempo bom nunca saíram do meu coração. Como seria bom se a gente pudesse dar uma voltinha no passado!
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