Bons tempos na Casa Verde

Quando eu andava de bonde, o da linha número 55 com ponto final na Praça Centenário e com início na Rua Antonio de Godoy lá no centro da cidade, tinha o bonde aberto onde eu andava no estripo com o vento batendo no meu rosto e também o fechado que tinha o apelido de camarão. Nessa época eu estudava no Grupo Escolar Professor Benedito Tolosa, não no atual e sim no antigo com galpões de madeira e outra parte em alvenaria.

Depois pedi transferência para o Grupo Escolar José Carlos Dias onde terminei o curso primário. Lá eu aprendi a ler, escrever, as quatro operações, um pouco de geografia, outro tanto de história, conhecimentos gerais, gramáticas. Tinha também o ônibus 74 da CMTC que saia da Av. Rio Branco quase esquina com a Av. Ipiranga, bem em frente ao Restaurante Guacyara II e com ponto final na Praça Cruz da Esperança.

Nessa época podia-se andar tranqüilamente pelo centro da cidade, sem o perigo de ser roubado, assaltado, seqüestrado ou assassinado. Nos finais de semana eu ia aos bailinhos de garagem e dos clubes do bairro como o Az de Ouro, União Casa Verde, Centenário, Laranjeiras, Vasco da Gama, onde dançava ao som de Ray Connif, Trio Los Panchos, Bert Kaempfert e orquestra, Pepino di capri, Rita Pavone, Gigliola Cinquetti, Charles Aznavour, Johnny Rivers, Beatles, Elvis Plesley, jovem guarda e tantos outros.

Aos catorze anos de idade comecei a trabalhar de Office-boy com carteira assinada, sempre trabalhei no setor administrativo e segui carreira. De Office-boy passei para auxiliar de escritório, depois para auxiliar de contabilidade e por final encarregado de escritório até aposentar-me. O Centro de São Paulo era tão tranqüilo que os cinemas tinham a famosa sessão da meia noite, costumava ir aos Cines: Ipiranga, Marrocos, Marabá, Ouro e no bairro nos Cines: D. José, Cine Casa Verde, Cine Santa Isabel, quase sempre assistia os famosos BANG-BANG, ou seja, faroeste americano.

No nosso bairro não tínhamos opções de lazer, quando criança jogava bola nos campinhos, brincávamos com bolinhas de gude, pião, bola ao taco, mãe da rua, mãe na mula, nadávamos no buracão (Matão), lago azul (Anhembi), empinávamos barrilete (pipa), andávamos de carrinho de rolimã na chácara dos padres (Jardim São Bento), íamos a missa das dez horas aos domingos na igreja Nossa Senhora das Dores (só na porta), ouvia com minha mãe novelas da Rádio São Paulo.

Por volta de 1965 surgiram às escuderias, eram de rapazes que tinham carros e participavam de gincanas promovidas pela TV Record, que para angariar fundos para as competições promoviam bailes em casas de famílias. Lembro-me de algumas: Esmeril, Pato, Mangusta, Cobra, Mixórdia, Xabunga cada bairro tinha várias escuderias. Também nessa época era muito comum namorar escondido, namorar no portão, depois ficar noivo e casar e foi o que eu fiz, namorei, noivei, casei, criei os filhos descasei e nunca mais casei.

Também era comum estudar até o primário, depois trabalhar, estudar a noite admissão ao ginásio. Ginásio depois o científico, ou o normal ou o clássico ou Técnico em contabilidade. Faculdade nem pensar, pois naquela época se escolhia casar-se ou faz faculdade, eu casei. Em Junho tínhamos as festas juninas e como eu tenho saudade. Eram mais ou menos assim: As famílias se cotizavam e compravam batata-doce, pipoca, amendoim, paçoca, quentão, bolo de fubá, enfeitavam um terreno baldio com bandeirolas de papel de seda de várias cores.

Com uma grande fogueira no centro e todos vestidos de caipira ao som de um conjunto de sanfoneiros dançavam a quadrilha. Com noivos chegando de carroça, o pai da noiva com uma espingarda, o delegado bravo e o juiz de casamento irritado. Ali diante da fogueira era realizado o casamento. O arrasta pé ia até altas horas da madrugada, onde aconteciam depois vários casamentos de verdade.

Lembro-me também quando criança que passava todas as manhãs na porta da minha casa um senhor com uma carroça e ia deixando litros de leite nas casas, inclusive na minha, depois vim, a saber, que era o Juca Leiteiro e que tinha uma vacaria na Rua Vichi, próximo ao Morro do¨S¨. Também tinha um senhor que vendia creolina em uma carroça, ele passava gritando: – Creolina lá boa, creolina lá boa, creolina lá boa, creolina lá boa é um desinfetante poderoso e com cheiro muito forte, atualmente não se usa mais.

Também passava por lá, Rua Zanzibar, um senhor nordestino moreno e baixinho em uma bicicleta adaptada vendendo quebra-queixo (é feito de coco com açúcar queimado e fica muito duro), mas era muito bom. Fui dormir e sonhei com os antigos empórios de secos e molhados, na época quase tudo era vendido a granel os com embalagens era muito mais caros. Hoje eu sei que a maioria das embalagens era importada, pois nossa indústria de embalagens era muito pobre. Vendia-se a granel óleo, arroz, feijão, farinha de milho, de mandioca, macarrão, (gravatinha e o espaguete), manteiga, azeitona, enfim quase tudo a granel.

Mas tinha um macarrão espaguete das Inds. Matarazzo que era embalado em um papel grosso na cor azul desbotado e chamava-se Macarrão Petybom. A maioria dos tais empórios era de portugueses e com nome de santa e o Srs. Manoel ou Joaquim estava sempre presente anotando nas cadernetas as vendas a crédito, também eles ficavam sempre com a caneta atrás da orelha. Havia também as quitandas, essas eram quase sempre de proprietários japoneses, também vendiam tudo a granel, não tinha bandejinhas ou plásticos para embalar, as verduras, carnes ou legumes eram embrulhados com jornal e colocado em nossas sacolas de lona.

Na década de 60 as famílias organizavam convescote à cidade de santos, pois poucas famílias tinham carros, então se organizava a excursão, que funcionava assim: Convidavam-se as pessoas para participarem, uma vez aceito colocava-se o nome na lista.
Até completar a lotação do ônibus, dividia-se o valor do frete entre todos. Marcava-se o dia e a hora da saída, geralmente saiamos no domingos de madrugada, lá pela 5h00 da manhã. Quase ninguém ia dormir, as duas da madrugada já tinha gente esperando o ônibus, ficavam soltando fogos, cantando, bebendo era a maior algazarra na rua.

As pessoas iam chegando com grandes sacolas cheias de alimentos, as mães preparavam, frango com farofa, pasteis, carne louca, bolos, arroz, limonada, café e sanduíches de mortadela. Na ida íamos cantando “ai ai ai ai aii ta chegando hora o mar já vem chegando…, Contando piadas. A turma do batuque não parava, isso porque a viagem demorava três horas, isso mesmo três horas para chegarmos na praia do Gonzaga.
Lá chegando era a maior comédia, as mulheres formavam uma grande roda abraçadas uma a outra e uma a uma ia para o meio para colocar o maiô. Os homens já estavam de sunga e as crianças davam cambalhotas na areia, os mais velhos jogavam bola, outros já estavam na água, alguns rolavam na areia, outros se cobriam com areia até o pescoço…

E como me ajudou a recorda a Salete, lembro-me também dos japoneses das tinturarias, exatamente como a descreveu. Naquela época andávamos de terno e gravata e eles deixavam as roupas impecáveis, principalmente às camisas brancas, que ficavam bem brancas e engomadas. Veja que engraçado, outro dia fui ao supermercado para comprar goma, pois queria engomar uma camisa que estava com a gola mole, procurei, procurei e não encontrei, então perguntei a um funcionário se eles tinham goma, ele foi procurar e me trouxe goma arábica, aquela de colar papel.

Então me lembrei de uma formula que minha mãe usava para engomar camisas (maisena e água), usei e deu certo. Nunca mais vi ninguém com camisa engomada, penso que não se usa mais goma. As tinturarias tinham as fachadas pintadas com faixas horizontais coloridas. Nas décadas de 60 e 70 fazia muito sucesso aqui no Brasil músicas italianas. Na década de 70 passava na Av. Casa Verde com Rua Guarisinho uma menina-moça, alta, magra, cabelos escuros e longos, muito branca e com um largo e belo sorriso, com uniforme do colégio NSD (blusa branca, saia azul marinho e meias brancas e sapatos pretos), nunca conversamos, mas ela sempre me cumprimentava com um belo sorriso. Passado esse tempo todo eu a encontrei no ORKUT e notei que ela continua com um largo e belo sorriso.

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