Bonde, esse criador de casos e causos

1955.
– Presto, presto! Che siamo in rittardo!* – minha mãe falava comigo, enquanto dava um último retoque na maquiagem.
Ela, cabelão Rita Hayworth, vestido rodado e decote avantajado – como toda italiana gostava de usar para realçar os atributos naturais e colocar em evidência um enorme pingente de safira preso a um cordão dourado (verdadeiro? Não! Pura "bijoutérie" das Casas Slopper…).
Eu, terninho cinza, de calça curta, cabelo lambuzado de brilhantina, fazia corpo-mole, calçando os sapatos. Odiava o terno, odiava o cheiro da brilhantina e odiava aquele corte de cabelo estilo "americano". O que teria acontecido com o corte "príncipe Danilo"?…
Ela, uma última olhada no espelho, um último ajuste na costura da meia, e pronto!
E eu, ainda amarrando os sapatos…
– Dai pigro!** Deixa que eu amarro o teu sapato.
Minutos mais tarde estávamos dentro de um ônibus, a caminho da Cidade.
Descemos na Praça Clóvis e caminhamos pala Rua Onze de Agosto em direção à Praça João Mendes. Atravessamos a Praça. Em frente à Padaria Santa Thereza, um "mar de gente" esperava o bonde que ia para a Vila Mariana.
Aqui começa a tragicômica aventura de uma viagem de bonde à casa de uma ótima costureira (que não era tão ótima), lá na Domingos de Morais.
Privilégio de mulher e mãe com filhos (naquele tempo era assim), tivemos assento garantido e no lado da janela!
A ida foi ótima: com direito a olhar as propagandas; ficar fascinado pela máquina de picotar a passagem, que o trocador ou "cobrador" trazia nas mãos; olhar para os passageiros; ouvir o som da sineta quando alguém descia e ficar estupidificado, olhando o motorneiro, todo uniformizado, mantendo o controle do bonde.
Mas, a volta… Ah! A volta. Nos dizeres de minha mãe, foi uma descida ao Inferno de Dante!
Começou com a tal costureira: o vestido não estava pronto. A chapeleira do Paraíso não entregara o chapéu que faria parte do traje de madrinha de casamento. Minha mãe ficou fula da vida com a perspectiva de ter que voltar no final da semana. Saiu de lá bufando, arrastando-me pela mão, em direção à parada de bonde.
O bonde da volta rolava pelos trilhos, parando para o embarque e desembarque de passageiros, e rumando para a Cidade. Anda por um tempo e pára atrás de outro bonde. O trocador do bonde da frente vem até o motorneiro do nosso, diz alguma coisa e volta para o da frente. O nosso motorneiro levanta-se e diz:
– Senhores e senhoras, um bonde quebrou e fechou o cruzamento. Todos os "carros" estão parados. Não há como continuar. Portanto…
Estava declarada a revolução! “Portanto o quê?” – Uns perguntavam. Outros culpavam a Light, a CMTC e "a porcaria de ter um transporte por trilhos". E todos culpavam a Prefeitura e o Governo, até o Papa. Indignação, grosserias, xingamentos. E tudo caía sobre o pobre motorneiro.
Falavam, todos ao mesmo tempo, sobre vantagens dos ônibus elétricos, mecânicos; falava-se de lotações e barateamento dos "táxis", cujo preço estava pela hora da morte.
Os bondes, enfileirados, qual cortejo fúnebre, um atrás do outro, eram abandonados pelos passageiros. Na rua, um estranho êxodo de pessoas furiosas e o caos.
Pessoas revoltadas, buzinas de carros disparavam em protesto; bate-boca de gente na rua com motorneiros e trocadores dentro dos bondes; um, mais esquentado, atira um paralelepípedo na janela de um bonde. Voa estilhaço de vidro sobre os carros e pessoas.
O trânsito estava parado. Um inferno!
Minha mãe, arrastando-me, caminhava depressa. Queria sair dali o mais rápido possível. Um bêbado, encostado em um poste, ofende um motorneiro com um palavrão. O motorneiro retruca com um outro. E eu, inocentemente pergunto à minha mãe o que significava, repetindo o palavrão. Minha mãe dá um tapão na minha nuca, e diz furiosa:
– Non dire parole brutte!*** – e sussurrou no meu ouvido, em italiano, o significado da palavra.
Assim era a minha mãe. Se você sabe o que significa uma palavra "feia", não tem por que dizê-la. E se disser, agüente as conseqüências.
Corei, engoli em seco e emudeci.
Andamos por muito tempo em meio ao trânsito infernal e pessoas indignadas. De repente, záz! Minha mãe quebra o salto do sapato.
Aí, parece-me que o drama do bonde adquiriu proporções imensas. Foi a gota d'água. Minha mãe desesperou-se.
Naquela época eu não entendia porque um salto de sapato fosse mais devastador que um bonde quebrado a interromper o trânsito. Mistério que a vida me revelaria mais tarde…
Ela, manquitolando e arrastando-me pela mão, caminhou à procura de ruas menos congestionadas e à procura de um táxi. Enfim, voltaríamos para casa. E de táxi! Para mim era uma delícia. Para minha mãe um gasto desnecessário.
Ao chegar do trabalho, meu pai teve que ouvir horas e horas a nossa tragédia "bondesina". Cansado de ouvir, meu pai jurou que levaria minha mãe, de carro, à costureira, no final de semana.
Sonolento, no meu quarto, ainda ouvia minha mãe falar do salto quebrado. O caso do bonde parecia estar esquecido. Mas o do salto, não…

* Rápido, rápido! Que estamos atrasados!
** Anda, preguiçoso!
*** Não fale palavrões!

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