Lembro-me bem do bonde aberto chamado de "Cara dura". Todas as terças-feiras eu ia com minha mãe na Igreja de São Francisco, que fica no Lgo. São Francisco, rezar a trezena para Santo Antônio, para isso íamos a pé da Rua Torrinha na Cidade Mãe do Céu até um laguinho em frente ao então Santista, hoje sede do Sesc, na Av. Álvaro Ramos, esquina com a Rua Serra de Botucatu, onde o bonde fazia o retorno para voltar à Pça. Clóvis Beviláqua.
Bem, sentamo-nos no banco, que era de madeira, e eu pendurei o meu guarda-chuvinha no encosto do banco da frente e lá fomos, quando o bonde saiu da Av. Rangel Pestana e fez a curva para parar no ponto final o meu guarda-chuva escorregou e caiu do bonde, e como ele estava bem enroladinho passou pelo vão da grade do bueiro caindo no buraco; eu dei tamanho grito e comecei a chorar tão alto que todos correram para me acudir, pensando que eu é que havia caído do bonde. Foi um tumulto e o cobrador do bonde com toda a calma pegou o ferro com que eles colocavam a carretilha no fio para o bonde andar e deitou no chão tentando "pescar" o meu guarda-chuva, o que não conseguiu, e eu chorando feito louca e imaginem a vergonha da minha mãe, até que ela agradeceu ao cobrador e pediu para que ele deixasse o guarda-chuva lá que iríamos embora (imaginem hoje uma situação dessa se seria possível).
Aí, fomos à igreja e depois para o escritório do meu pai, que ficava na Rua Venceslau Brás, nº 46, no 1º andar e lá minha mãe contou para ele o que tinha acontecido e o meu pai me levou na loja para comprar um guarda-chuva novo e eu queria que fosse igualzinho ao outro, o que não foi possível. Então, me contentei com um vermelho que tinha no cabo um periquito.
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