O Bonde linha 101, que fazia o trecho Praça João Mendes até Santo Amaro/Largo São Sebastião (Hoje Largo Boneville), fez sua ultima viagem em 1968, nos deixando para sempre, e que, na época, tínhamos ilusão de um dia retornar.
Algumas composições eram alaranjadas, outras quase que na cor vinho queimado, com um único, mas fortíssimo, farol frontal, com um som estridente de ferros ao brecar, e lá vinha ele no seu “tcho, tcho…” (era esse o barulho que meus ouvidos captavam), pelo caminho estreito, ladeados por ciprestes, que quando chovia exalavam agradável perfume da natureza.
Eu morava praticamente a uns 150 metros de uma parada e ouvia, à noite, perfeitamente a abertura e fechamento das portas dianteira e traseira para desembarque ou embarque dos passageiros, que era comandada por uma alavanca de bola, pelo cobrador.
O que restou dos trilhos da vida são doces recordações, das nossas viagens de Santo Amaro, até o Colégio Ennio Vóss (Mario de Andrade) localizado à Rua Joaquim Nabuco no Brooklin.
Até hoje, quando passo pela Avenida Vereador José Diniz, tenho a sensação de ouvir o barulho feito pelas enormes rodas de aço deslizando pelos trilhos. Vou tentando lembrar os nomes das estações, o que consigo com pouco esforço. Deodoro, Alto da boa Vista, Floriano, Volta Redonda, Piraquara, Frei Gaspar, Brooklin Paulista, Petrópolis, Casa da Força, Moema. Nas estações, existiam bancos em ferro trabalhado, com ripas de madeira no assento e encosto, que quando envernizados ou pintados, faziam estragos nas roupas de seus usuários.
Na parte externa traseira do bonde, existia uma grande roldana, onde era fixada uma corda que, atada ao cabo de força, corria por toda extensão da rede elétrica. A finalidade deste mecanismo era dar flexibilidade, caso o bonde passasse por uma depressão maior nos trilhos, e impedir esse cabo de se desprender da rede; caso isso ocorresse, faltaria energia e este pararia automaticamente, deixando o coletivo às escuras.
Pois bem, nós garotos, sem maldade, mas traquinamente, ao descer do bonde, corríamos para trás do mesmo, e enroscávamos a corda em um pino fixo da roldana, e ficávamos acompanhando ao longe, o resultado da nossa molecagem, que era o bonde parar na primeira irregularidade que passasse. Então, o pobre condutor do bonde (Motorneiro) tinha que descer, e desenroscar o nosso engenho, para que tudo voltasse ao normal, o que nos levava a gargalhada e esbravejar por parte dele.
Tinha um cobrador parecidíssimo com o ex-presidente Jânio Quadros; bigode, óculos, cabelo por pentear, escondido pelo quepe, uniforme azul marinho surrado, e curiosamente com caspa nos ombros, tal e qual o nosso querido Jânio.
Muito engraçado: nós tínhamos um amigo, que sempre ao passar pela catraca, deixava um par de barbatanas, pois a camisa do nosso cobrador sempre estava com as pontas do colarinho viradas, o que provocava risos por parte dos passageiros. Ele segurava as notas dobradas uma sobre as outras, presas entre os dedos médios e indicadores para facilitar o manuseio na hora do troco.
Nas noites de frio, quando os passageiros conservavam as janelas fechadas, nós comprávamos um barbantinho que, quando aceso, exalava um forte cheiro de enxofre, e nós, marotamente jogávamos embaixo do banco do nosso Jânio, o que gerava uma revolta, principalmente a dele, que ameaçava nos tirar do bonde, e automaticamente todas as janelas eram abertas.
Lembro dos cartazes com propagandas fixadas acima das janelas, junto ao teto, como: Antisardina, Creme Rugol, Creme de Alface Brilhante, Brilhantina Coty, Emulsão de Scott, Cera Dominó, Brilhantina Glostora, Flit mata moscas e pernilongos, Óleo de Fígado de Bacalhau, emplasto Sabiá, Regulador Xavier, Rhum creosotado, e um remédio para dor de dentes, onde tinha uma foto de um senhor com um pano amarrado entre o queixo e a cabeça (não me lembro o nome).
Todo ano o colégio nos emitia uma carteira para aquisição de passes escolares, que nós adquiríamos na Galeria Prestes Maia, junto à escada rolante, no guichê da CMTC, o qual nos proporcionava quase 50% no valor das passagens.
Encanto! Saudade! Alegria em lembrar disso tudo! Ao terminar, sinto o gosto de pureza em minha garganta e suavidade em meu coração. Como sou feliz em viver tais momentos!
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