Bola ao rio!

Confesso que até os meus nove anos de idade eu não tinha o menor interesse por futebol, até que em um belo dia resolveram transformar um terreno baldio atrás de casa em um campinho. O campinho ficava às margens de um córrego junto à Av. Hélio Lobo com a Rua Laércio Neves, no Jabaquara. Por causa da localização do campo, o mesmo foi batizado de Beira-Córrego (talvez uma alusão ao Estádio Colorado, quem sabe?).

Pois bem, aos poucos fui dando meus primeiros passos no futebol e me enturmando com os frequentadores do local. Os mais assíduos eram os irmãos Claudinho e Rico, filhos da Dona Cida. Os outros eram Colorido, Charlô e Marquinhos Moura, irmãos. Claudião, Adilson, Mutuca e Giba (e mais irmãos!), Luí e Joãozinho, Coruja, Ari e Birrocho (chega, já tem irmãos demais nessa história!).

Aos poucos fui mostrando habilidade com a pelota e comecei a cair nas graças da molecada, porém eu tinha uma deficiência que deixava meus amigos loucos: meus lançamentos!Eles eram simplesmente horríveis!
Eu via o Rico ou o Claudião mandar a bola no peito de um moleque como se fosse por telepatia e queria fazer o mesmo e aí quem sofria era a bola que, não rara, tomava banho no córrego. A partir daí nasceu o grito: “Bola ao rio!” Quando não era no córrego, era nas casas vizinhas, mas o riozinho era mais frequente.

Quando meu time atacava sentido rio, a molecada já soltava um "não lança, não lança". Eu tentava jogar curtinho, bola no chão, mas aí eu via um companheiro mais avançando e arriscava, porém… “Bola ao rio!” O Giba, como era um dos menores da turma e não jogava muito bem, ficava a maioria das vezes de fora e maioria das vezes também resgatava a bola no rio. Às vezes, não tinha como salvá-la e lá ia ela dar um passeio sem volta no Rio Pinheiros.

O Claudião era o irmão mais velho do Giba e já não gostando muito de ver a mesma cena me disse que se eu lançasse a bola no rio novamente eu teria que buscá-la e isso foi estendido a todos. O Ari aproveitou para soltar essa:

– Kéco, de que é feita a bola?
– De couro, Ari.
– Legal. E couro vem de onde?
– Da vaca, do boi.
– Esses bichos comem o quê?
– Capim, certo?
-Então cara, deixe-a rolar no capim, não lança mais não.

E assim parei de lançar. O tempo foi passando, nós fomos crescendo e o campinho diminuindo. Muitos se mudaram, assim como eu que hoje resido em São Bernardo do Campo, e outros que lançavam a bola com maestria não tiveram a mesma habilidade na vida e se lançaram por caminhos que não tiveram volta, tais como as bolas que desceram o rio. Hoje, o campinho é um depósito para caçamba de entulhos, com muros altos e pichados. O córrego está canalizado, mais fundo e largo, bem diferente no começo dos anos 80, quando conseguíamos pular em alguns pontos de uma margem a outra.

É estranho você olhar para um lugar e ver que nem se quer um palmo de chão permaneceu intacto com o passar do tempo. Mas a nossa mente é fantástica e hora ou outra nos proporciona viajar por lembranças que não se esvaecem. Ah, se eu aprendi a lançar? Bom, essa é outra história. Abraços.

E-mail: [email protected]