Penha-Lapa: o ônibus que atravessava a cidade inteira, sempre lotado, mas que passava a toda hora; tomava-se o ônibus mesmo que não se fosse para a Penha ou para a Lapa.<br><br>Entro num dia comum, na Avenida São João, no ônibus lotado e logo me chama atenção uma moça mulata, alta, muito bonita e bem vestida. Aliás, chamava atenção do ônibus inteiro. Trabalhadores voltando para casa acabavam dando um jeitinho de se aproximar dela, um mulherão.<br><br>Começou me chamar atenção a forma como ela, de pé no ônibus, se aproximava dos homens. E esses, por sua vez, não escondiam suas satisfações com as “encostadas” da moça. A cada encostada eu percebia que ela conseguia bater uma carteira ou pegar dinheiro com uma discrição a toda prova…<br><br>Comecei a ficar com dó dos homens que estavam sendo roubados; presenciei uns três ou quatro roubos feitos pela linda mulata. Quando ela tenta bater a carteira de um sujeito que estava muito próximo a mim e, como iria descer em seguida, bati no ombro dele e disse: "Cuidado com sua carteira”. Ninguém entendeu nada; perto da mulherona, eu, uma estudante um tanto quanto desinteressante, modelo USP, até poderia estar envolvida na situação: eu que poderia ser acusada de algo.<br><br>Fui em direção à porta para descer e percebi que estava sendo acompanhada pela bela mulata. Desci na Praça Marechal, que na época era bem tranquila. Pensei comigo mesma: "Agora ela irá discutir comigo ou falar qualquer coisa".<br>Que nada! A mulher desceu com toda classe, como se eu nem existisse, e foi em frente, certamente buscando no próximo ponto outro ônibus cheio.<br><br>Passa-se algum tempo, tinha mania de ler jornais tipo imprensa marrom, em especial o Jornal Última Hora. Seus editoriais eram muito bons, mas também os crimes eram alardeados em grandes manchetes. Estávamos em 1962. “O Brasil disputaria a copa no Chile”, dizia a uma notícia.<br><br>Folheando o jornal, não consigo identificar exatamente qual, vi na página policial o relato de um homicídio e uma foto que não me era estranha… Após uns instantes, identifiquei a mulata bonita que estava naquele dia no ônibus Penha-Lapa. Segundo a notícia, ela havia sido assassinada. Vivia num casarão luxuoso do Ipiranga, estava se preparando para ir à copa do mundo roubar, mas não queria levar o amante a quem sustentava e que numa briga por causa da viagem, a matou. Lembro-me até hoje da foto e da reportagem.<br><br>Fico fantasiando a história dessa batedora de carteira, que pelo jeito levou uma boa vida à custa da sua esperteza e da sua beleza, mas acabou caindo no velho golpe do coração e perdeu a copa. Até gostaria de encontrar essa reportagem, mas meus dotes de pesquisadora foram infrutíferos. <br><br>E-mail: [email protected]