O ícone fotográfico que toda a barbearia tinha, estava lá, pendurado na parede, em lugar de destaque e para deleite dos olhares masculinos e os devaneios dos sonhos impossíveis. Refiro-me ao calendário com a inconfundível imagem de Marylin Monroe, nua, sobre uma manta de cetim vermelho, com o loiro de seus cabelos, e vermelho de seu batom e esmalte nas unhas. Obra de arte das lentes da década de 50, qual barbearia não a possuía? Figura temática do mundo cinematográfico, tornou-se mascote dos barbeiros Brasil afora.
Não foi diferente na barbearia do Egydio, que ficava no começo da Rua Treze de Maio, lá no Bixiga, cujo salão, um pouco estreito, acomodava três cadeiras 'Ferrante' forradas com couro marrom pespontados com enormes tachas douradas, que já esmaeciam pelo tempo e pelo uso dos fregueses que por ali sentavam e roçavam pernas e nádegas. Os braços ainda permaneciam alvos, já que a porcelana era mais duradoura e o encosto da cabeça apresentava pequena puidez pelas inúmeras barbas que ali foram feitas. Prateleiras de madeira com tampo em mármore rajado leitoso, acomodavam ordeiramente, os frascos de 'Água Velva' e as muitas loções capilares, além das famosas brilhantinas 'Glostora' e 'Brilhante'. Espelhos envolventes com 'pétalas' luminárias, pentes, navalhas, potes e pincéis de barba, máquinas de corte elétricas e manuais, tudo ao gosto do freguês.
Em um dos cantos, um aparelho em desuso há muito tempo. Era o aquecedor de toalhas para amaciamento da barba. Consistia de um cilindro em aço, com resistência que, aquecido, esquentava as toalhas previamente umedecias para serem aplicadas no rosto do freguês que tivesse a barba mais rebelde. Um ventilador de coluna ocupava outro canto do salão e, com movimentos oscilantes, refrescava o ambiente do calor abafado do lugar.
Um rádio de cabeceira tinha um nicho todo seu e era constantemente sintonizado nos 840 kHz da Bandeirantes e, por ele, todos podiam ter informações imediatas dos acontecimentos de São Paulo, do Brasil e do mundo.
Na porta, quase assomando a calçada, uma pequena banca de relojoeiro recepcionava os relógios das muitas marcas da época para ajustes e limpeza ou algum conserto mais necessários. Eram Cymas, Omega, Mido, Pateck Phellip, Roskoff, etc. Rolex e Cartier eram raridades por aquelas bandas e, quem os tivesse, preferia enviá-los às oficinas autorizadas, pois um relojoeiro comum sentia até calafrios quando uma dessas peças aparecia em sua frente.
Já na Rua Santo Antonio, entre o viaduto Martinho Prado e a pequena Rua Delegado Everton, ladeira que dá acesso à Avenida Nove de Julho, por lá funcionou o salão da dupla Washigton e Pardal, que pouco diferenciava do salão do Egydio.
Com as mesmas cadeiras 'Ferrante' e já em novo modelo, calendários de belas mulheres nuas, mas em poses discretas onde somente os seios, nádegas e coxas eram as partes mais evidentes, já que suas genitálias estavam ocultas ou disfarçadas por sutis coberturas.
A novidade do salão seria a figura de uma manicure que, instalada na entrada em uma pequena bancada, munia-se de alicates, lixas e esmaltes incolores para extrair as cutículas, cortar e pintar as unhas dos mais vaidosos.
A 'modernagem' não parava por aí. Os cortes de cabelos passariam a ser conhecidos como 'hair style', ou seja, nada daquele velho hábito de cortar o cabelo e simplesmente fazer o 'pé' com a navalha. Agora, usava-se o pente e a navalha para conferir um melhor corte e uniformidade, sem deixar pequenas pontas, tudo isso ao som de um bom disco do Ray Coniff ou um bolero de Carlos Alberto, tocados na moderna vitrola Phillips Hi-Fi.
São muitos os barbeiros do Bixiga e de São Paulo, mas estes dois fizeram parte de minha infância e juventude e tiveram como precursores o velho Luigi, filho da italiana Concheta, que manteve um salão, na mesma Rua Santo Antonio e próximo de minha casa.
Luigi não se especializou e nem se modernizou e, pro isso, perdeu espaço para o novo e para o tradicional. Eram poucos os seus fregueses (ou aqueles que se aventuravam pelo preço mais barato), mas ele não se queixava. Ou, pelo menos, não deixava transparecer nenhuma preocupação.
Sua barbearia era o que se poderia traduzir de 'antiquário'. As máquinas de corte ainda eram manuais (para ele, as elétricas davam muitos problemas mecânicos e consumiam energia). Água com um pouco de lavanda era a loção após barba.
Havia um seu auxiliar que, por força de um calo mal curado, permanecia em constante movimento lateral, na busca de um conforto ao incômodo. Era um barbeirinho meio cegueta que, com a habilidade de um açougueiro, cortava os cabelos de incautos fregueses e, por muitas vezes deixou em suas cabeças falhas, aqui conhecidas como 'caminho de ratos' que, com a exclamação da vítima, isto é, do freguês, saia-se com a seguinte resposta:
– Quando crescer, esconde tudo! Daí, você volta e eu conserto. Tá?
Barbeiros do Bixiga, de São Paulo, do Brasil e do mundo. Todos têm as suas características próprias e não só pelas piadas de salão ou das informações confidenciais de algum segredo de estado. Sim, alguns muitos barbeiros foram responsáveis nas mudanças de decisões em nosso cenário político, cultural e esportivo, mas, também, pelo que um dia representaram em nossas vidas e ainda representam.
Obrigado Egydio, obrigado Washington e Pardal, obrigado Luigi e seu parceiro 'segueta'. Já não mais preciso da tábua para sentar. Já cresci bastante e os meus cabelos, agora demoram de crescer. Sinais do tempo. 'Fígaro, fígaro, fígarooooooo…’.
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