Quando o navio de meus pais, o La Plata Maru, aportou em Santos, acontecia a Revolução Constitucionalista, portanto, o ano era 1932. O governo de São Paulo não queria receber mais aquela leva de imigrantes japoneses e até houve incidente diplomático entre Brasil e Japão quando teve a intervenção do Ministério das Relações Exteriores para tentar solucionar o caso.
Diante dessa situação indefinida, os passageiros desse navio estavam impedidos de desembarcar em solo brasileiro e com esse impasse o governo da Argentina se propôs a recebê-los em seu solo, talvez simpatizado com o nome da nave “La Plata Maru”.
Porém, resolvido o incidente, os imigrantes conseguiram seguir de maria-fumaça para o interior de São Paulo e meus pais se juntaram aos meus avôs e lá tiveram a dura vida na lavoura de café, perto de Ribeirão Preto, na região de Jardinópolis.
Como todos imigrantes japoneses, eles vieram para o Brasil naquela ilusão de que em dois anos ganhariam muito dinheiro e teriam condições de voltar ricos para o Japão, afinal, trabalhariam com o "ouro verde" aqui no Brasil, e essas palavras calaram fundo em todos os imigrantes exercendo um fascínio muito grande. Mal sabiam eles o que significavam isso e souberam da dura realidade, que estavam substituindo a mão-de-obra escrava pelos imigrantes de outras nações.
Porém, como todo ser humano, tiveram que se adaptar em território estranho e inóspito, onde a maior dificuldade era o idioma.
Com o tempo, a colônia foi se virando em seu meio, muitos ainda trabalhando como assalariados, outros já tendo a vantagem de trabalhar "à meia" como eles conheciam, que alocavam terras e davam 50% aos donos e o restante 50% dos produtos ficavam com eles. Outros ainda, não contentes com a vida na roça, arriscavam ir para a capital paulista, graças à rádio-peão que se dizia que nas adjacências da Rua Conde de Sarzedas, Tabatinguera e Conselheiro Furtado havia uma colônia japonesa onde podiam obter informações úteis sobre como viver em São Paulo. Se obrigaram a aprender ofícios como tintureiros, feirantes, pasteleiros com variação em comida japonesa para poderem sobreviver. Nascia assim o Bairro da Liberdade.
Em 1963 fui morar na Liberdade, o bairro já era reduto tradicional da colônia japonesa. Nessa época frequentava a Rua Galvão Bueno e gostava curtir o Cine Niterói, que exibia os clássicos samurais, yakuza, e lutas marciais. Deste último estilo, um dos filmes que me marcou muito foi o filme "Judô minha vida", com Tsuruta Koji, um dos atores japoneses mais conhecidos na época.
Lembro-me também, quando da visita do então Príncipe Herdeiro Akihito e da Princesa Michiko, hoje casal Imperial do Japão. Foi uma festa muito bonita, os japoneses acenavam com bandeirinhas do Brasil e do Japão, em uma manifestação de carinho e saudades do Japão.
O bairro era essencialmente japonês, com suas decorações e luminárias em forma de "tchiotchin" e o portal "torii" que decorava a Rua Galvão Bueno que se distinguiam como símbolos japoneses e davam aquelas características nipônicas que eram o orgulho de seus descendentes.
Com o progresso, o bairro foi se deteriorando, a Diametral Leste-Oeste surrupiou um bom pedaço do bairro e com isso foi-se o Cine Niterói e algumas outras lojas. A Rua Conselheiro Furtado também sofreu uma grande transformação com o alargamento da rua e o outro naco roubado foi a construção do Metrô Liberdade, na década de 70.
Hoje, a Liberdade deixou de ser o reduto dos japoneses, convivendo com outras raças como os chineses, coreanos e outros povos, tornando-se não o bairro japonês, mas, mais precisamente, bairro oriental. Desta maneira, os japoneses procuraram outros locais como Saúde, Vila Carrão que já era forte na concentração da colônia, se juntaram também ao Pinheiros, muitos foram para Vila Sônia e se espalharam para todos os bairros.
Contudo, ainda, atualmente, na esquina da Galvão Bueno com a São Joaquim está o prédio da Aliança Cultural Brasil-Japão, conhecido entre os japoneses como Bunka Kiyokai, ou simplesmente Bunkyo, prédio da Associação Cultural Japonesa de São Paulo.
Como se vê, o tempo implacável muda tudo e nas nossas mentes só ficam as lembranças dos bons e velhos tempos. Por falar nisso, ainda bem que o governo federal conseguiu controlar o impasse do navio “La Plata Maru” atracado no Porto de Santos, porque senão eu me tornaria argentino e aí a história seria completamente diferente.
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