Bairro Cidade Monções – Acontecimento 1: o cabrito do senhor Mário

Como já detalhei na Origem do Bairro Cidade Monções, publicado neste espaço em 24/09/08, o bairro era nos anos 50 formado por famílias, onde todos se conheciam como numa pequena cidade do interior.

Esse fato que vou narrar aconteceu comigo e mais alguns amigos, todos moradores da Rua Guaraiuva, quando éramos meninos ainda cursando o primário.

O senhor Mário, um vizinho que também veio muito cedo para o bairro, comprou um cabrito, que após o abate seria consumado por um amigo, degustado na ceia do ano novo que se aproximava. O senhor Mário, como não queria que o cabrito ficasse dentro do seu quintal, amarrou-o em frente a sua casa, do outro lado da rua, mais precisamente na trave do gol do campinho de futebol, onde nós garotos nos divertíamos jogando bola todos os dias. E ali, o senhor Mário mandava alimentar o seu cabrito diariamente, esperando ansiosamente a hora de degustá-lo.

Eis a surpresa: roubaram o cabrito do senhor Mário uns três dias antes da véspera do ano novo. O homem ficou louco da vida e chamou os garotos, oferecendo dez cruzeiros para quem achasse o mesmo. Nós nos reunimos e combinamos de sair juntos para tentar achá-lo; era sábado de manhã.

Primeira parada, a venda do senhor Plínio, que até levou um susto ao ver aquele bando de meninos indagando-lhe se tinha visto o cabrito do senhor Mário. Ele, mais do que depressa, para nossa surpresa, disse: “Vi sim! Passou por aqui um homem, no final da tarde de ontem, o qual eu conheço de vista e que mora na segunda casa à direita passando a próxima esquina, puxando um cabrito pela corda.”. Quase que ele nem termina de falar e já estávamos correndo para a casa do homem.

Tocamos campainha e nos atendeu um senhor alto, forte, com vozeirão de dar medo, e foi logo perguntando: “O que vocês querem?”. Eu, como meio líder da turma, respondi: “Queremos o cabrito do senhor Mário que está em sua casa”. O senhor respondeu: “Que cabrito, menino, que conversa é essa!”. Eu respondi: “O senhor Plínio ali da venda disse que o senhor está com o cabrito do sr. Mário e que ele viu o senhor passar em frente a sua venda puxando ele pela corda”. Responde o senhor: “Caiam fora daqui, meninos, porque eu sou delegado de polícia, mando prender todos vocês, inclusive esse tal do senhor Plínio da venda; aliás, com ele eu vou ter uma conversa mais tarde na delegacia e mostrar quem é ladrão de cabrito!”.

Quando o homem falou que era delegado, não ficou ninguém para ver o que viria depois. Foi uma correria geral, cada um se debandando por um lado.

Infelizmente, o senhor Mário ficou sem o seu cabrito naquele ano novo, porque depois dessa, nós desistimos da procura.

Tempos depois viemos descobrir que o sr. Plínio era o maior gozador do bairro e aprontava com tudo mundo, sendo que desta vez as vítimas fomos nós e o delegado, que, aliás, depois, aceitou as suas desculpas. Afinal de contas, ele também era freguês da sua venda.

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