I – Eu, moleque, tinha uns 10 anos. Então, era lá por volta de 1957. Acima do assento do motorista, o aviso. Creio (não lembro com certeza) que também nos encostos das confortáveis poltronas de nós, os passageiros: "É proibido fumar cachimbo, charuto e cigarro de palha".
Isso faz mais de meio século, é certo. Mas ainda lembro que eu me intrigava: e por que não também cigarro "comum"? Devo ter querido tirar a dúvida com algum adulto, de cuja "explicação" nem lembro. A qual deve ter sido alguma desculpa esfarrapada.
À época, eu já detestava cigarros e congêneres. Hoje, não detesto: odeio. E
com o apoio de muitos brônquios, traqueias e pulmões. E, é claro, com discordância de tantos outros.
Quem compartilha dessa minha aversão (que já existia àquele tempo), é minha inseparável rinite alérgica. Que sempre viajou comigo. Por outro lado, eu gostava de "cigarrilhas": de chocolate Pan. Existe ainda?
II – Eu sintonizava a "Voz do Brasil". Ficava de olho (ou de ouvido) no "Aviso aos Navegantes": farol aceso, farol apagado, etc.
Minha imaginação navegando, qual cisne branco, até o Atol das Rocas. Ou Noronha. Ou ao Cabo Branco. Pois aquele aviso aos fumantes, nos “coaches” do Expresso Brasileiro, era um "aviso aos navegantes" que iam para Santos e São Vicente – a bordo dos ônibus verde e amarelo que zarpavam, lépidos e "rugidores", da agência em curva na esquina de Rangel Pestana com Frederico Alvarenga.
Na pracinha em frente, ficavam estacionados um montão daqueles lindos “coaches” GM. Que também iam para outros lugares, menos Rio de Janeiro. Para Cidade Maravilhosa, Brasileiro e Cometa – grandes concorrentes – partiam era da então chique Avenida Ipiranga, muitos lembrarão. Eu, por mim, teria colocado um outro aviso nos ônibus: "será sempre proibido pensar em fumar!". Incondicionalmente.
III – Eu que quase nunca ia para Santos, mais nunca ainda – e que lástima era! – ia à praia. Também andava nos Twin da Cometa, de motoristas de gravata azul. Os do Brasileiro, de gravata verde.
Até que o Brasileiro montou uma outra agência, Tabatinguera com João Mendes. Para mais perto estar da Cometa, na Clóvis, ao lado dos Bombeiros. Lembram?
Foi quando meus olhos de moleque viram um novo ônibus do EBVL. Também americano. Ele tinha um grande "porta-malas" na traseira e motor entre eixos: o ACF-Brill, dizia a plaquinha. Entre 1947 e 1958, é que veio para cá toda aquela profusão de “coaches” americanos que Brasileiro e Cometa encomendavam, zerinho. Pelos quais eu me fascinava. Empresas que eram vanguardeiras no cenário rodoviário brasileiro e, à época, incomparáveis. Era como nos filmes americanos. Ônibus iguais aos da Greyhound! Anos "dourados" mesmo… Exagerando, viajar na Cometa ou no Brasileiro era como viajar de avião: chique.
IV – Já pelo começo de 60, acho, o Brasileiro vai e inaugura outra agência fora do Centro. Até perto de onde eu morava. Bernardino de Campos com Rua do Paraíso. Nem por isso minhas viagens a Santos deixavam de ser minguadas.
Foi quando descobri um "novo" ônibus: o "papa-léguas". Quem é contemporâneo de mim, e gosta de ônibus, lembra: a CAIO reformara uns “coaches” do Brasileiro e botou uma carroceria nova neles. Que vim a descobrir depois, inspirado no "Roadrunner", da marca Fitzjohn. Está na Bus Transportation dos anos 60. Papa-léguas, avezinha "corredeira" da TV, com o coiote atrás – perdendo todas! O papa-léguas do Brasileiro também veloz – tinha um motorzão tão bravo que coiote algum ousaria… Além da fumaça!
V – Era um São Paulo ainda sem rodoviária – mas por pouco tempo. De quando a Santa Generosa, grandona, perto da Bernardino, dominava a paisagem da Praça Rodrigues de Abreu. Em cuja ruela lateral, perpendicular à do Paraíso, os “coaches” do Brasileiro aguardavam, tirando soneca até a hora de partir para Santos: via "Estrada do Vergueiro". Nessa ruela, vez por outra, um cirquinho – para regozijo de nós, moleques e adultos vilamarianenses.
VI – É muito lógico: São Paulo, de meio século para hoje, tanto mudou que a garoa nem tanto mais "cai à toa" – como diz a linda canção-hino da Paulicéia. São Paulo, de longe, também é bem mais que "o Brás que ergueu o viaduto": e quantos outros surgiram! Mas ainda assim ouso digitar, no teclado da memória, lembranças tolas como as de 57… Nada além de pura nostalgia.
VII – Como, todavia, o transcorrer do tempo é – por natureza, mas não por maldade – impiedoso para com a memória, as lembranças (principalmente as do tempo de moleque) irão diluindo. Naturalmente. Lembranças tão distantes, distorcidas pela erosão. E, aí então, ao querer invocá-las, involuntariamente será como acionar o próprio "aviso aos navegantes" de A Voz do Brasil. "Lembranças: farol apagado. Sem previsão de retorno. Para sempre. Boa noite!"…
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