Minha família morou na Rua da Consolação por mais de cinquenta anos. A casa era do meu tio, um homem muito rico, nós pagávamos aluguel. Até aí todo normal.
Em meados dos anos 70, uma construtora comprou as casas do lado da nossa para construir um prédio de doze andares. Nessa época, o meu tio já era falecido (tinha deixado a herança toda para o meu irmão mais velho, uma opção dele).
O meu irmão não queria vender a casa. Mas um empregado da construtora convenceu o meu irmão a vender. Deram dois apartamentos e mais uma soma em dinheiro. Até aí todo normal.
Mas o empregado da construtora contou vantagem para os meus pais que a construtora tinha muito dinheiro, e no Brasil quem tem manda.
Nós tínhamos poucos dias para sair da casa (apesar de morar há cinquenta anos e ter todos os recibos dos alugueis, os meus pais resolveram sair).
Depois de 25 anos, eu estava comendo um lanche numa padaria, quando se aproximou um senhor careca, barbudo e mal vestido, pedindo para eu pagar um lanche. Começamos a conversar, ele contou-me que foi um grande funcionário de uma construtora que faliu, ele perdeu tudo.
Eu o reconheci: era o cara que tinha ofendido os meus pais na venda da casa da Consolação. Quando eu disse o seu nome, ele ficou surpreso.
Como eu sabia o seu nome, contei-lhe todas as histórias da casa, ele começou a chorar, perguntou dos meus pais, eu disse “já faleceram faz muito tempo”.
Perguntei dos proprietários da construtora, disse que todos sumiram e tinham falido. Fiquei olhando para aquele senhor e pensando: a vida é uma droga.
Dei um dinheiro para ele e me despedi. Ele agradeceu e pediu que o perdoasse. Fui andando e pensando: até as pedras se encontram.
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