Ataquistério

Inda outro dia, ouvi na rádio – ainda ouço rádio, e como! – a notícia de que São Paulo foi considerada a segunda cidade em qualidade de serviços. Parece que o critério adotado para a escolha foi a presteza e a cordialidade no atendimento. E a pesquisa fora realizada junto a estrangeiros que vêm à cidade a negócios.

Ora, pesquisa!, você dirá. Eu pelo menos nunca participei de nenhuma. Vivo ouvindo falar sobre resultados de pesquisas, mas, francamente, nunca me perguntaram absolutamente nada sobre nada. Sou um nulo em matéria de opinião. Ou talvez a minha opinião não interesse a ninguém. Mas se me serve de consolo, não conheço ninguém que tenha participado dessas tais pesquisas que vivem circulando pelas mídias, pelos noticiários.

Voltando ao assunto, fiquei surpreso, positivamente, com o fato. Afinal, é um orgulho para nós, paulistanos, sabermos que nossa cidade é considerada como uma capital de bons serviços e atendimento, ficando atrás apenas da Big Apple, Nova Iorque. Fantástico!!!

Porém, em termos práticos, a coisa não é bem assim não. Que o diga uma grande amiga minha. O que se passou com ela vem exatamente contrariar as pesquisas, as tais das estatísticas.

Estavam ela e uma amiga almoçando em um restaurante conceituado da nossa cidade, quando finda a refeição e após pedirem a conta, se encaminharam para a saída, em direção ao vallet – esses tais manobristas. Aliás, restaurante chique é assim. É vallet o nome do cidadão que leva e traz seu carro, digo automóvel. E minha amiga só freqüenta lugares très chic. Não a convide para comer no Sujinho, ou no Pé pra Fora, não.

Mas já estavam ali postadas na porta do restaurante há mais de quinze minutos e nada de chegar o carro. E a espera foi aumentando e a paciência, naturalmente, diminuindo. Até que o manobrista, depois de uns bons berros da minha amiga, se deu conta de que o carro dela ainda não tinha chegado. Então trata de falar no rádio, pro outro manobrista.

– Tião, as muié tá tendo ataquistéreo!

Minha amiga, que é atenta, ouvindo tal falta de discrição na descrição da situação, daí então, virou bicho mesmo. Teve mesmo o tal do ataquistéreo. Quase pulou na jugular do manobrista! E inclusive ameaçou levar o caso para a gerência da casa e pra todos os jornais, revistas e colunas sociais da cidade.

O coitado (essa palavra na sua concepção vem de coito, como me explicou a minha amiga) suava frio tentando dissuadi-la em não fazê-lo.

– Dona, a senhora quer desempregar um chefe de família?

Eu só tava imaginando minha amiga tendo de acolher aquele pobre trabalhador – tá certo que um tanto quanto displicente – em sua confortável casa. Imagina aquele maravilhoso sofá cor de café, da sala dela de quatro ambientes, cheio de crianças ranhentas.

Imagina a mulher do homem cozinhando praquela criançada toda no fogão elétrico termostático da cozinha altamente equipada da casa dela. E a roupa dessa turma toda na secadora. Como fica isso?

Bem, quer saber, acho que a minha amiga, após alguns segundos mais calma, ponderou melhor e resolver recolher suas ameaças. Mesmo porque o carro já havia chegado, são e salvo.

Isto posto, e tenho dito, essas tais pesquisas não me dizem muita coisa mesmo não! Que o diga minha amiga! Para sermos uma excelência em atendimento e em serviço, acho ainda que falta muito. Ou então, que diremos das outras cidades que concorreram na tal da pesquisa.

Ora, ora, pesquisas. E quer saber mais, pelo menos lá no Sujinho ou no Pé pra Fora não tem esse problema não, pois lá eu vou mesmo é de busão.

e-mail do autor: [email protected]