Nos anos de 1950 a 1965, que foi nossa infância nesse bairro, quando aqui ainda havia poucas casas e todas as ruas eram de terra batida, diga-se, como era batida, principalmente na parte alta do bairro entre Vilas das Belezas e Jardim São Luiz.
Nesse alto havia as ruas B, atual Rua João Fernandes Camisa Nova Junior, que liga os dois bairros, Rua 35, atual Rua João Meinberg, Parte da Rua Portugal hoje Rua Orlando Magnani, entre outras. Esse local alto tem um tipo de terra vermelha escura que, em época de chuva, as ruas ficavam lisas como sabão, porém sem fazer muita lama; e na época de seca virava uma camada cascuda e dura como cimento.
Lembro-me perfeitamente que, principalmente nessas ruas de nosso bairro, havia muitos formigueiros que dele se originavam enormes montes de terra granulada e vermelha. Era até bonito ver, inclusive quando chovia, aquela terra ficava úmida e a criançada aproveitava e fazia bolinhas de barro com as mãos, do tamanho das bolinhas de gude e deixava secar em cima de qualquer madeira ou no próprio chão. Quando secava usávamos no estilingue, as bolinhas de barro viravam uma pedra tão dura que, substituía aquelas pedras comuns e também os pedregulhos tirados dos rios, que eram pedras bonitas clarinhas e de tamanho uniforme um pouco ovalada, que naqueles anos era usado na construção civil para colunas e pisos. Hoje, usa-se a pedra britada, vindas de pedreiras, hoje em dia é usada em decorações de vasos de plantas e jardins.
Na primavera, nós tínhamos a famosa revoada de tanajuras ou içás, que eram as rainhas do formigueiro, elas saiam de suas tocas e era impressionante a nuvem de iça que com pequenos vôos caiam nas ruas e em nossas casas, e era uma loucura as crianças e a mulherada de bacia capturando as tanajuras e arrancando aquele "traseiro" redondo e marrom e colocando em seu recipiente, e a prática de fazer isso era grande, pois uma ferroada daquela formiga doía três dias e sangrava muito.
Para muitas pessoas aquilo era um alimento importante, pois dava uma farofa maravilhosa, torrava-se numa panela grande com farinha de mandioca e mais alguma coisa e era de lamber os dedos.
Muitos tinham nojo, pois, aquelas "protuberância traseira", tinham um líquido de coloração e viscosidade como o da jabuticaba, tão bom quanto, um manjar dos deuses, mas lembrava outra coisa.
Outra rua que também tinha muitos formigueiros era a Rua Fim de Semana, no bairro Jardim Fim de Semana, que limita o Jardim São Luiz aos bairros Jardim Fim de Semana e Jardim Jobá e Parque Santo Antonio. Desde os anos 1990 tornou se asfaltada, é uma avenida longa, une o Parque Santo Antonio e cemitério São Luiz ao Hospital Campo Limpo que fica na Vila Prel e Vila das Belezas; tem esse nome devido a ser um lugar alto de ótima visibilidade e com muito verde, que servia de parque para os moradores de outros bairros mais populosos.
Nesse mesmo local onde a terra também era um vermelhão havia muitos formigueiros, era tanto que os moradores desses locais na época da revoada das tanajuras iam à caça e uma coisa que me chamava à atenção, eu nos meus mais ou menos 10 anos de idade lembro a forma como era capturadas as tanajuras, muitas mulheres iam com uma bacia com água e entrava dentro dela para que as formigas não picassem as pernas e iam coletando os iças e colocando nos bornás a tira colo, que ficava cheia dessa iguaria, servindo de alimentação de muita gente. A gritaria entre as mulheres principalmente era grande e muitas risadas e alguns choros devido a umas picadas.
Todos os anos vinham os homens da prefeitura com um caminhão e cada um tinha um fole nas mãos com um bico na ponta que introduziam no formigueiro e começavam a bombear aquele aparelho, que mais parecia uma sanfona, onde saia uma fumaça escura de cheiro horrível, a molecada se espalhava mais que as formigas e todos os anos repetiam a cena.
Em casa, no nosso quintal, tínhamos problemas com essas formigas, pois nossas árvores frutíferas, como pêssego, uvalha, amora e uma pequena parreira entre outras árvores, viviam desfolhadas. Meu pai via quase toda sua plantação pelada e o chão forrada de folhas picadas e era fácil ver a trilha das formigas saúva carregando as folhas, tinha umas que levavam folhas inteira para o terreno vizinho sem construção, que nesse tempo era o que mais tinha, era incrível a visualização do caminho delas, limpinho e longo, elas iam e voltavam, de tantas, que uma passava por cima da outra quando não dava para desviar, creio que trabalhavam sem descansar.
Saíamos pelo mato atrás das formigas para achar o ninho, nem precisava procurar muito, logo se enxergava o monte de terra no meio do mato.
Havia plantas que não suportavam esse tipo de agressão e morriam, como o pessegueiro, a solução veio logo, não adiantava jogar veneno ou querosene, o jeito foi arrumar uns pneus e cortá-lo ao meio formando duas metades como se fosse uma piscininha e instalar no pé das plantas e encher d'água. Estava resolvido o problema, o único cuidado era não deixar faltar água no pneu, hoje correríamos o risco de criar o pernilongo da dengue.
Com o desenvolvimento do bairro, as ruas foram asfaltadas e os lotes ocupados. Já em 1977, isso desapareceu, até uns anos atrás encontrei uma tanajura em nosso quintal, única e solitária, que deve ter vindo num vôo perdido e mais longo que as outras, talvez de algum terreno abandonado. Olhei, recordei e a peguei, para o susto e medo de minha esposa e filhos, que fizeram uma careta. Não tive mais coragem de degustá-la, foi o tempo, mas não desaprendi de pegá-la sem levar ferroada.
Tudo isso veio á tona em minha memória, porque, passando em frente a um terreno da SABESP, como faço sempre, na Rua Antonio Ramos Rosa, rua da caixa d'água do Jardim São Luiz, próximo do cemitério São Luiz, vi um monte de terra vermelha, deduzi que era um formigueiro com aquele monte junto ao muro de barras de concreto, onde a terra já começava a transbordar para a calçada da rua e a fita do filme de minha memória reativou e passou o vídeo, depois de quase meio século de hibernação dessa imagem.
Essas formigas, saúva, no caso a tanajura é a rainha deles, que em época de início das chuvas e ou primavera saem dos ninhos. É uma formiga de país tropical da America do Sul, só não existe no Chile. Existe, mais de duzentos tipos, a mais comum em São Paulo é a marrom, que também é conhecida como cortadeira.
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