Quatro? Sim! Éramos quatro. Quatro como os mosqueteiros, aliás, as mosqueteiras. Eram as irmãs jecas, respectivamente: Jeanice, Clarice, Angélica e Sônia. Cursávamos a oitava série do Ginásio, hoje Ensino Fundamental II do antigo CESPEOC, a atual Escola Estadual Senador Paulo Egydio de Oliveira Carvalho, situada na Avenida Araritaguaba, Vila Maria, uma das mais conceituadas escolas estaduais da época (l965). Era necessário fazer um exame classificatório para ser aceito no quadro discente da referida escola.
Éramos quatro garotas inseparáveis, fazíamos tudo praticamente juntas, onde estava uma poderia olhar atentamente que as outras estavam por perto. Dançávamos, cantávamos,participávamos de todas as atividades pedagógicas e não pedagógicas da escola. Nosso professor de Francês, Monsieur Vidal, costumava ficar muito bravo quando alguém retirava uma de nós para tratar de assuntos não pertinentes a aula. Qualquer festividade que a escola promovia, lá estávamos as quatro prontas para ajudar, não importava o dia ou hora.
Tudo era feito com responsabilidade e nossas atividades escolares estavam sempre em dia. Nossa semelhança era tanta que até os cabelos eram cortados de modo idêntico (moda Joãozinho) semelhante aos Beatles, esses mesmos, os garotos de Liverpool de quem éramos fanáticas admiradoras. Tínhamos um grupo de amigos que conosco estudavam cujo nome artístico era "Thunderbirds" eram eles Fausto, Vicente, Moacir e Fernando, além do Pedrinho que não estudava lá e tocava com o grupo. Esses eram verdadeiros "covers" dos Beatles e nós logicamente, não podíamos ficar de fora, eles tocavam e nós fazíamos a coreografia das músicas dançando em grupo. Até as roupas e adereços eram iguais, eu fazia bonés para todo o grupo.
Os bailes do "Paulo Egydio”, como eram chamados, eram os melhores, suplantando os bailes da região inclusive o do "Sion". Não tinha para ninguém. A renda era destinada a festa de formatura. Existiam também grupos que participavam de escuderias e que disputavam entre si, eram os grupos "Taturana", "Fogaça" e outros que não me lembro e que participavam de gincanas com seus possantes, fuscas, aero Willis, DKVs.
A escola em dia de baile ficava sob a responsabilidade da comissão de formatura eleita todo ano, tamanha era a responsabilidade. Lembro-me de que no terceiro ano do colegial, hoje ensino médio, fizemos uma viagem de formatura para a recém inaugurada Brasília, capital, eu era a tesoureira da Comissão de formatura, todos se esforçaram para fazer a viagem, vejam a ousadia! Chegamos a rifar um fusca zero km da Vimave, a mesma revendedora situada na Rua Guaranésia na Vila Maria, o carro saiu sob a minha responsabilidade, todos nos unimos e conseguimos vender os números de rifas referentes ao Fusca. A sala inteira foi viajar menos eu, pois minha mãe estava muito mal de saúde. Vocês já imaginaram se fosse hoje?
Nós fazíamos passeios maravilhosos com nossos mestres para Embu das Artes, onde nossa querida professora Bruna, de história, possuía um sítio muito agradável. As meninas e as professoras: Rosinha, Marina e tia Indiana, iam no sábado e os meninos no domingo, pois não havia acomodação para todos.
As classes eram muito unidas, quando saíamos, íamos em grupos. Nos bailes juntávamos as mesas e fazíamos um corredor só da nossa turma. Promovíamos bailes nas casas de amigos, lembro de uma colega que fez um baile em sua casa, só que seus pais haviam mandado passar Cascolac no assoalho, não teve drama, nós tiramos os sapatos e dançamos de meias, para não riscar o piso. Hoje passado tanto tempo, ainda tenho notícias da Angélica, converso diariamente com a Clarice pela internet, só não conseguimos encontrar a Jeanice que se mudou para "Matão". Mas não vou desistir enquanto não encontrá-la para nos reunirmos novamente.
Nós éramos crianças normais, levávamos bronca da direção, às vezes dos professores e ninguém teve transtornos de ansiedade e déficit de atenção, não éramos chamados de hiperativos éramos sim criativos, respeitávamos os limites e a moral, diferente dos alunos de hoje. Todo mundo tirava "sarro" de todo mundo e ninguém dizia sofrer "bullying”, ninguém era processado por admirar as curvas da colega bem dotada. A garota sorria e tirava de letra. Não se falava em discriminação. Meus melhores amigos, eram negros e pobres e isso não nos afligia. Os filhos de pais separados faziam questão de esconder o fato e agiam normalmente sem requerer atenção especial para si.
Quem tinha muito (lembro-me da Morêdos Pedras e Mármores pertencente a três irmãos: Francisco, Caetano e Adriano) juntavam-se a quem tinha pouco. Quanto mais simples melhor, não se ostentava riquezas. A nossa maior riqueza era a amizade, a fraternidade, a preocupação com nossos amigos. O amor e o respeito eram símbolos da nossa bandeira.
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