Dentre as mais gostosas lembranças de minha infância estão as festas familiares. Sou de origem italiana de ambos os lados, mas a família de meu pai realmente era unida. Tudo era motivo para reuniões: aniversários, Páscoa, Natal, fim de ano, casamentos, nascimentos, batizados e vai por aí…<br><br>Enquanto minha avó era viva e morava na Lapa, as reuniões eram em sua casa. Seus filhos e filhas, noras, genro, netos, sobrinhos e sobrinhas com seus respectivos cônjuges, sobrinhos netos, enfim era uma verdadeira festa. Em sua casa era retirada a mesa da sala de jantar, no seu lugar cavaletes e extensas tábuas varavam os dois salões e a mesa parecia maior que a da Santa Ceia de Da Vinci.<br><br>As mulheres se reuniam na cozinha, o molho começava a ser preparado pela vovó, desde a quinta-feira, para ser servido no domingo: precisava apurar até o ponto. Muito tomate era pelado, batido e coado para perder as sementes. Cozido durante dias junto com a carne e temperos para ganhar sabor. A massa, deliciosamente caseira, era preparada pelas mãos das mulheres, que com todo o esmero faziam delicados ‘capelettis’, ‘richietelis’, ‘talharinis’, ‘raviolis’ recheados de ricota, ‘torteletis’, ‘canellonis’, ‘fuzilis’ enrolados no ferrinho e outras delícias da cozinha mediterrânea.<br><br>Isso para não falar das carnes assadas, ‘polpetones’, tortas e das deliciosas sobremesas. Mas após a morte de minha avó, uma nora que já era festeira por natureza, assumiu o papel de promover reuniões familiares: tia Otília. Casada com meu tio Alfredo (irmão de meu pai), moravam em São Caetano. Eram os pais do Antonio Marcos, Cláudio e Alfredinho (o único parente meu, que eu saiba, que nasceu em casa e não numa maternidade).<br><br>Um parêntesis: assim que o tio Alfredo comprou a casa naquele município, iniciou a perfuração de dois ou três poços em busca de água… o que nunca aconteceu. Pode não ter acontecido, mas lhe valeu o apelido de ‘Barão do Poço Seco’, outorgado pelos irmãos. Sempre que íamos para lá dizíamos, vamos à casa do ‘Barão do Poço Seco’.<br><br>Lembro que quando pequeno eu achava as reuniões na casa de meus tios tão longe, que ir para São Caetano era como fazer uma viagem… Vejam só! Hoje São Caetano está aqui do lado. Mas lembro-me que às vezes pegávamos o trem para irmos até lá. A chegada na estação era sempre uma festa. Meu pai fazia questão de comprar tremoços, ou um suco de tamarindo para que eu tivesse oportunidade de conhecer coisas que meninos da cidade desconheciam. Dizia ele: "Esse menino vive calçado, nunca viu um porco, uma galinha ou uma vaca de perto. Nunca freqüentou um pomar!<br>Algum dia preciso mandar ele para uma fazenda para conhecer essas coisas!" E um dia cumpriu a promessa, mas essa é uma outra história.<br><br>Voltando às festas da Tia Otília, tudo seguia as regras, como as da vovó. Saladas, vinagretes, fritas, as carnes, quando não era um churrasco, eram assados com deliciosos temperos que perfumavam a casa. As massas, como sempre, eram preparadas pelas mulheres da família. E para os homens havia sempre os barris de chope, que nós crianças ficávamos bombando para dar pressão e enchendo as jarras para servir aos adultos.<br><br>Esse era outro capítulo à parte, pois os homens se reuniam em torno do chope e iniciavam a cantoria: "Oh! Que belo companheiro. Porque bebes tão ligeiro? Se és covarde, saia da roda, que a nossa empresa requer valor! Primeira bateria, vira, vira, vira, vira, vira, vira, virou!" E se seguiam as segundas, terceiras, quartas e quantas baterias eles aguentassem.<br><br>Numa dessas reuniões, eu e meus primos Celso e Antonio Carlos fomos brincar num terreno baldio que havia em frente da casa. No terreno havia um buraco pelo qual escorregávamos, mas o Celso, por infortúnio, no receio de cair, segurou com as mãos numa cerca que havia em cima do buraco. A tal cerca era de arame farpado. Nem é preciso dizer que foi um verdadeiro drama. O ainda menino Celso teve a mão rasgada em um belo pedaço e foi levado a um pronto socorro. Levou uma quantidade enorme de pontos nas mãos. E por pouco não estragou o restante da festa, que apesar da quase tragédia, continuou, não com a alegria de sempre, mas com um clima um pouco mais pesado devido ao ocorrido.<br><br>Mesmo assim, guardo belas lembranças das festas da Tia Otlília. O tempo passou e minhas visitas a São Caetano ficaram mais escassas.<br><br>Anos depois me tornei ator. Um dos espetáculos que participei era um especial para escolas; "Teatro através dos tempos", uma montagem de trechos de textos clássicos desde o "Auto da Barca do Inferno" até o "Auto da Compadecida". Nele atuavam Rosaly Papadopol, Élcio Sodré, Marcelo Campos, Yara Grey e eu, sob direção de Jacques Lagoa.<br><br>Viajamos por vários teatros apresentando o espetáculo para estudantes. Um deles era o Teatro Municipal de São Caetano. Depois de termos ensaiado no local, resolvi dar uma volta. Para minha surpresa o Teatro situava-se exatamente em frente à casa do meu tio, no mesmo terreno onde o Celso acidentou-se.<br><br>Meu tio Alfredo, já viúvo, nos recebeu num almoço e hospedou o elenco inteiro, proporcionando lugares para que todos fizessem uma sesta (sono da tarde) e nos acordou com uma colher de mel para cada um, pois iríamos usar a voz e isso faria bem antes do espetáculo.<br><br>Meus colegas não acreditaram na hospitalidade de meu tio. Mas é preciso ressaltar que a generosidade é uma característica da família Roberto.<br><br>Recentemente fui à casa de meu primo Alfredo (o Alfredinho), que hoje é médico. Visitei a casa, que ainda conserva as mesmas características. As árvores no quintal estão muito grandes, o velho abacateiro está gigante, mas tudo remete àqueles tempos.<br><br>Hoje, adulto, pude olhar os lugares que brinquei quando criança, sob o ângulo de meus olhos de adulto. Pude rever cenas daquelas festas. Quase consegui ver os fantasmas das pessoas reunidos nos cantos da casa. Ouvir o "Vira-Vira" do chope….<br><br>Os discos de música italiana que meu tio punha na vitrola para tocar: Nicola Paone cantando "Ue Paesano!", "Ò Sole Mio", "Marechiare", "Santa Lucia"… E essas imagens e sons acabaram se diluindo nas lágrimas que secretamente meus olhos verteram.<br><br>Só ficou a saudade, digo, a saudade e a certeza de que apesar de tudo, esses foram bons momentos que fizeram valer uma vida. Que bom!<br>