As palmas no portão interromperam papai que ajudava a descarregar a mudança. Uma menininha magricela, aloirada, olhos curiosos, pedia:
– "Moço, posso brincar com sua "coisinha?"”.
-“Você quer brincar com minha menininha? É isso?”.
A menininha magricela fez que sim e eu, com quatro anos, me vi sendo empurrada diante daquela menininha que teria uns cinco anos. E foi desse modo que nossa amizade começou, eu a chamando de "coisinha" e ela me chamando de "coisinha". Penso que tínhamos vergonha de nos chamar pelos nomes ou então, acho que nem nos disseram como nos chamávamos no meio da bagunça que era aquela mudança.
A nossa rua era de terra, a água de poço e o fogão de carvão. Havia três casas no pedaço, a minha, a dela onde a rua fazia a curva, do lado oposto e mais adiante a de uns alemães, depois vinha à capelinha, a casa do cavalo Guarani, a casa do bode e uma série de terrenos baldios carregados de pés de mamona e de capim, e só. Era a Rua Gaspar Fernandes, Vila Monumento, bairro Cambuci. Uns barrancos nos levavam para as ruas de cima que eram também de terra vermelha.
Crescemos e fizemos juntas o Grupo Escolar e a Primeira Comunhão, também brincamos e nos divertimos naquelas ruas empoeiradas e, em um Natal, quando ganhei um par de patins, eu o dividi com ela, um patim em cada pé, abraçadas as duas. Nossas mães eram amigas e costumavam ficar juntas durante as tardes. A mãe dela era italiana e além de fazer tricô com quatro agulhas fazia polenta. Minha mãe fazia corte e costura. Quando tirou diploma de corte e costura fomos ao Cambuci para minha mãe tirar foto de vestido longo com flor no peito. Na volta nos compraram dois sapatinhos chamados "chiquita bacana", que tinham veludo na frente e solado de cortiça. Usávamos nos sábados e domingos para irmos ao circo e ao parquinho. Soltávamos as tranças e os cabelos caiam longos e onduladas pelas costas. Éramos tão felizes!
Uma vez, fomos comprar coisas em uma venda, eu e ela, levamos meu irmãozinho de dois anos e voltamos sem ele. Minha mãe desmaiou, nossos pais saíram feito loucos porque começava a escurecer e o encontraram na vendinha, que ficava na rua coronel Diogo, onde o havíamos deixado esquecido. Pensei ser este o pior dia de nossas vidas… Ledo engano… Era apenas uma amostra do que estava por vir.
A mão do destino desceu pesada sobre nós, este malvado, desceu sem dó e sem piedade. Papai que era quem atendia a "coisinha" quando esta batia palmas no portão, ele foi embora, ele nos deixou, nossa casa precisou ser alugada e fomos morar bem longe dali, fomos para o Brás, fomos morar com minha avó. A outra "coisinha" então sofreu golpe pior, o irmão dela morreu em um trágico desastre. A mãe dela, inconformada, morreu tempos depois.
Vez ou outra, eu me refugio naqueles tempos, são passagens que fazem parte da minha "zona de conforto", é claro que vou só até a página dois. A parte dolorosa eu deixei enterrada sob as areias do tempo, este outro malvado que insiste em seguir sempre em frente. Nós retornamos àquela casa, anos depois, eu já mocinha, isto quando meus pais reataram o casamento, mas algo havia se quebrado. Os chineses dizem que um vaso de cristal quebrado, mesmo que colado, sempre terá as marcas das rachaduras.
Hoje somos Trini e Eni. Amigas. Em todos os natais trocamos votos, vez ou outra nos falamos ao telefone, a vida foi nos levando para caminhos diversos, tivemos altos e baixos, vivenciamos alegrias e tristezas, sucessos e derrotas, formamos novas famílias.
Quanto as duas “coisinhas", estas ficaram encantadas e foram guardadas naquele lugar dentro do coração chamado "zona de conforto" onde costumo me refugiar quando a vida teima em bater forte…
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