Após São Paulo (Linda!), a estrada

Estranho um cara assim, tão real e ao mesmo tempo tão difuso. Sei que não é a melhor descrição que eu poderia fazer dele, mas é a que me vem ao relembrá-lo, portanto, fica essa mesmo.

Nenê – a razão desse apelido ficou perdida no tempo, mas serviu como uma luva, embora ele não goste, para quem gosta tanto dele vai ser nenê até o fim.

Para não perder o ponto, a maneira mais sutil de falar sobre esse cara é contando uma historinha que dividimos: um dia, faz tempo, em um carro meio velho (não tenho certeza se Brasília ou Corcel), após cruzarmos a cidade de São Paulo (linda!), íamos para as terras de antanho, pela Anhanguera; perto de Mogi Mirim, paramos para abastecer – e molhar o bico – quando apareceu um viajante pedindo carona. Dizer não foi coisa que Nenê nunca aprendeu, titubeou, mas levou o solicitante.

Na estrada, sempre a 60/70 por hora, que o carro andava direitinho, mas não era dos mais ligeiros, o rádio – com muita interferência – anunciou:
"fugitivo da cadeia da cidade, sujeito perigoso e de maus bofes, foi visto nas imediações da rodovia que vai para Minas. Cuidado!"

Pronto, acabou o sossego e desandou correr aquele suor frio. Nenê olhava para mim, eu olhava para ele, olhávamos de viés para o camarada e o cara nem aí; só parecia prestar atenção na paisagem.

Perto da barreira, assim do nada, o “caronista”, que pouco falou pelo caminho, pediu para descer, agradeceu, desceu e foi embora. Olhei o nenê e ele ria, ria um riso nervoso, tímido, mas alegre. Um riso de nenê!

Essa é só uma historinha simples que vivemos juntos, mas para quem o conhece tem aí dois elementos que o definem bem: sua infinita bondade e seu riso tímido tão característico.

Lembrei-me de falar nele hoje, porque às vezes relembro destes tempos com saudade; “depois passa que a vida é zás”, mas aí fica um vago sentimento de culpa e esse sentimento não passa. Não passa porque, assim como ele, eu também vim por essa estrada, essa estrada que percorrem os que se mostram indiferentes ou que desmontam um pouquinho a realidade – “dão cores outras até” – para não deixar transparecer a agudez da dor que, até para si mesmo, mentem.

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