Lembrar é resistir era o título, bem propício, dado ao espetáculo que marcou a reabertura do prédio do DEOPS, Departamento de Ordem Política e Social, como Memorial da Resistência, em Setembro de 1999, reiniciando assim um novo capítulo na história daquele espaço marcado por momentos horríveis.
DEOPS tornou-se o prédio símbolo da ditadura militar dos anos de chumbo que se seguiram ao golpe militar de 1964, onde suspeitos de ações consideradas subversivas eram levados, presos e torturados.
Reentrei naquele edifício, assisti aquela encenação e senti na pele um pouco do que foi uma mancha na história de São Paulo, numa viagem não tão amena às injustiças cometidas naquele lugar. A peça, com autoria de Analy Alvarez, contava com um elenco de primeira, dentre eles João Acaibe. Soube que a ideia surgiu a partir de uma compilação para resgatar um passado cheio de dor e sofrimento, daqueles que lutaram na busca de uma democracia.
Logo ao entrar no edifício, deparei-me com um "policial" tratando brutalmente o público, distribuindo filipetas e "fichando"-nos como num interrogatório. As portas de ferro na entrada já colocavam o tom na apresentação e a história das torturas ia sendo desvendada ao público, guiado pelas mãos do agente do DEOPS "Mão de vaca", interpretado brilhantemente por João Acaiabe.
Quem assistiu ao espetáculo "Lembrar é resistir" pôde reviver as agruras in loco, dentro das celas de cimento frio, nas dependências com paredes de tijolo aparente e reviver num ambiente assustador, a triste história de várias personalidades e lideranças políticas. Olga Benário, Luis Carlos Prestes, Anita Malfatti, Gianfrancesco Guarnieri, Maria Werneck, uma lista infindável de políticos, atores, escritores que passaram por aqueles momentos inimagináveis pra nós.
Não foi fácil acompanhar as cenas das torturas, mostradas nua e cruamente, sob uma penumbra de 25 watts, era brutal. Diante de uma encenação tão verdadeira, não houve quem não se emocionasse às lágrimas, daqueles que sofreram as agruras dos anos soturnos da ditadura. Naquele dia eu saí de lá um pouco mais consciente, mas sentindo vergonha deste passado da nossa São Paulo. Contudo, "Lembrar é resistir", que numa redundância, colabora na preservação da memória da nossa história que gostaríamos de esquecer.
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