Esta é a história de um dos mais legítimos e fiéis mosqueteiros que conheci e, como prova de minha isenção, informo que sou torcedor da Lusa desde criancinha (isso mesmo). Para contar esta história foram necessários dados numéricos, que fui buscar no Almanaque do Timão, de Celso Dario Unzelte (Placar/Ed. Abril).<br><br>Transcorria o ano de 1951. O português Antonio Miguel, nosso vizinho da Rua Horácio de Castilho, aqui em Vila Maria, era um homem às direitas, muito respeitado e querido por todos. Porém, para seus amigos portugueses e torcedores da Lusa, o marido de dona Piedade tinha um defeito inadmissível em um português… Era Corinthiano, isso mesmo, com "c" maiúsculo e com direito ao "h" depois do "t.". Apesar dessa, para eles, tremenda aberração,<br><br>‘Seu’ Antonio contava com a compreensão (nem sempre…) dos seus cordiais adversários, os lusos: Armando Fernandes, Mario Catharino, Manoel Pereira (meu pai) e outros aqui do pedaço. Eles o confortavam pelo verdadeiro calvário que sofria por conta do jejum de nove anos que seu clube atravessava sem vencer um Campeonato Paulista. O time “rubro verde”, por outro lado, apesar do timaço que possuía e de sempre emplacar um ou dois artilheiros (Julinho e/ou Pinga), nunca chegava a ponta. A terceira era quase que invariavelmente sua colocação. A mútua desdita inibia as provocações e, na dor, os unia.<br><br>Apesar dos dissabores, fizesse sol ou chuva, lá ia o ‘seu’ Antonio, religiosamente, ao Pacaembu, a espera de um milagre que já se fazia tardio. Quando o Corinthians tinha mando de jogo ele gostava muito de ir a pé de Vila Maria ao Parque São Jorge através do Parque Novo Mundo. Essas idas a pé à "Fazendinha" tinham, para ele, o significado de uma verdadeira peregrinação.<br><br>As preces do seu Antonio foram finalmente ouvidas. Nesse mesmo ano de 51, o Corinthians desencantou e, com facilidade, venceu seus adversários, impondo a alguns deles impiedosas goleadas. O São Paulo, por exemplo, que o timão não vencia havia cinco anos, caiu fragorosamente derrotado por 4 a 0 (26/08/51). O título veio com duas rodadas de antecipação e com a brilhante vitória de 3 a 1 sobre o arqui-rival alviverde, o time do seu Antonio encerra o campeonato com chave de ouro, em 27/01/52, com um gol "de letra" marcado pelo irreverente "pequeno polegar" (Luisinho), aos 30 minutos do primeiro tempo. Alegria pura! Além da Taça de Campeão Paulista e o baile sobre o “Verdão” na final, o inesquecível ataque corintiano (Cláudio, Luisinho, Baltazar, Carbone e Mario) quebrou o recorde dos 100 gols no Paulista que era do Santos desde 1927, marcando 103 gols, com a incrível media de 3,43 gols por partida e, tem mais; emplacou os dois principais artilheiros do campeonato – Carbone (30) e Baltazar (24). Era felicidade demais para aquele coração Corinthiano.<br><br>A Lusa dos patrícios do ‘seu’ Antonio, para não variar, ficou com a terceira colocação, mas colocou Julinho (24) e Pinga (23) na galeria dos artilheiros e ainda pregou uma peça no alvinegro. Para gáudio da nação lusíada, a "Severa" fez sucumbir o Corinthians, no domingo, 25/11/51, impondo-lhe acachapante goleada por 7 a 3 (Essa não dá para esquecer). Este acidente de percurso, compensado pela brilhante performance do clube em 51, não chegou a tirar do rosto do ‘seu’ Antonio aquele sorriso de satisfação. O calvário de desilusões substituía-se por uma caminhada de sonhos. E como ele estava<br>feliz.<br><br> O Paulista de 52, que deu ao Corinthians o título de bicampeão, veio com uma rodada de antecedência e, foi uma verdadeira barbada, um passeio… Dos 30 jogos disputados 25 foram vencidos e Baltazar assumiu o primeiro posto na artilharia com 27 gols. O Corinthians ratificou sua conquista ao vencer o tricolor de virada por 3 a 2 (perdia por 2 a 0), no Pacaembu, em 01/02/53. De quebra o time do ‘seu’ Antonio, em brilhante excursão pela Europa, obteve o título extra-oficial da "Faixa de Ouro" do futebol brasileiro vencendo 15 dos 16 jogos disputados, e mais, ficou definitivamente com a Taça São Paulo, ao vencê-la pela quinta vez. Haja coração! O do ‘seu’ Antonio batia no limite. Era muita adrenalina para um coração, mesmo que corinthiano. E a Lusa dos seus patrícios? – Para não perder o costume ficou em terceiro e emplacou o segundo artilheiro do campeonato, Pinga com 23 gols.<br><br> A discreta campanha de 53 rendeu ao Corinthians apenas o terceiro lugar no Paulista e a colocação de um corintiano, Cláudio (o mestre) com 17 gols, no terceiro lugar da galeria de artilheiros. Mas, o Corinthians não passou em branco. Faturou o título do Torneio Rio-São Paulo e o da Pequena Taça do Mundo, disputada na Venezuela. O Campeão Paulista de 53 foi o São Paulo, mas o primeiro artilheiro foi o palmeirense Humberto com 22 gols, cabendo a Maurinho do tricolor o segundo posto com 18. A lusa caiu para a quarta colocação e desta vez não emplacou artilheiros.<br><br> Em 1954 a cidade de São Paulo comemorava o seu 4° Centenário e a conquista do título de Campeão Paulista era a ambição maior de todos os grandes clubes da cidade. Para o Corinthians então era uma verdadeira obsessão. Diria ‘seu’ Antonio que, em 53 o time estivera "apenas a treinar" para agora sagrar-se o Campeão dos Centenários. Muito disputado, o campeonato foi vencido pelo Corinthians que, no mesmo ano faturou mais um Torneio Rio-São Paulo e, de quebra a Taça Charles Miller, mas por incrível que pareça, não colocou artilheiros na galeria. O primeiro posto na galeria dos artilheiros foi ocupado pelo palmeirense Humberto (36) e o segundo pelo são-paulino Gino (18). A Lusa, em queda livre, desce para o quinto posto.<br><br> É bom lembrar que naquela época os jogos de futebol eram verdadeiros shows de bola. Estávamos no tempo do futebol arte, onde, apenas para citar os paulistas, despontavam craques do quilate de: Cláudio, Luisinho e Baltazar (Cor.); Bauer, Mauro Ramos e Maurinho (São Paulo); Vasconcelos, Zito e Tite (Santos); Canhotinho, Valdemar Fiume e Rodrigues (Palm); Djalma Santos, Pinga e Julinho (lusa) e mais uma inumerável e inolvidável galeria deles. Diz-se hoje que o futebol arte não era objetivo. Discordo veementemente! Vejam-se os números dos torneios! Firulas, canetadas, gingas, bicicletas, chapéus e até pedaladas (por que não?), faziam parte do jogo, quase nunca pobre em gols. Esses requintes, dizem, estão de volta. Tomara!<br><br>Mas, e o ‘seu’ Antonio? Resistiu heroicamente às profundas emoções proporcionadas pelo seu clube, num dos mais gloriosos momentos de sua história e, fiel ao extremo comparecia ao Pacaembu para prestigiar e incentivar o time que agora, para sua felicidade, era O Campeão dos Centenários.<br><br>Um dia (02/01/55) seu Antonio viveu sua maior e derradeira emoção. Depois de tanta felicidade aquele combalido coração não resistiu e finalmente descansou. Fora demais para ele e, no próprio estádio, em um jogo contra o São Paulo, enquanto festejava mais uma grande vitória do seu querido alvinegro seu Antonio partiu. No dia seguinte os jornais noticiaram: – "O torcedor Antonio Miguel, presente no Pacaembu, não resistiu às emoções de mais essa virada corintiana, de 0X2 para 3×2, teve um ataque cardíaco e morreu ali mesmo” <br><br>O frio noticiário não traduzia o quanto pode ser dramática uma paixão verdadeira, cultivada por décadas e por alguém que possuía apenas um coração corinthiano.<br><br><br>E-mail: [email protected]