Anos cinzentos

Ao ler o belíssimo texto do nosso colega e colaborador do site, Anthony Mennitto, sobre o desrespeito do poder constituído durante os anos da revolução militar, lembrei-me de um fato ocorrido nessa mesma época, décadas de 70 e 80.

Meu filho Maurício, que trabalhou no Itaú, nesse período, com pouco mais de 20 anos, instalava os primeiros terminais eletrônicos na periferia e nas agências. Pra se locomover melhor e com mais rapidez, comprou o transporte do sonho, (dele e pesadelo, meu), uma moto de cilindradas conforme a "grana" permitia. Com o tanquinho cheio, era moto de 1.500 c.c., se ela (a moto) não tinha tanto, o Maurício dava um jeito. Era um azougue, no fluxo e na contramão e nós, com o terço na mão. Levou alguns tombos, sem muita gravidade, um dos quais o obrigou a realizar uma cirurgia no ombro, até hoje sequelado.

Uma ocasião, em um sábado, deixando a moto na porta de casa, depois do almoço, descobriu que ela tinha desaparecido. Levaram a moto embora. (só não pulamos, de alegria, eu e a Myrtes, porque sempre tivemos respeito com nossos filhos) Não perdeu tempo, precisava dela na segunda feira pra trabalhar. Foi até a delegacia da Vila Sonia, 93ª, naquela época na própria Vila Sonia, hoje na Avenida Escola Politécnica. Registrou a queixa, deixou as especificações da máquina e voltou pra casa. Disse a ele que se não encontrassem a moto, (o que eu achava muito provável), poderia ir trabalhar com o carro da mãe. Não esperou muito, antes do fim do dia, recebe um telefonema, da Delegacia. Conseguiram detectar um garoto com a moto:
– “’Pô’, isto é que é sorte não chegaram nem a esquentar o assento da moto” – gritei.
– “Por que o senhor está triste?” (ele sabia da nossa antipatia pela moto).
– “Claro que não Mau, só que não vou com você na delegacia, não acho necessário”.
– “Pode deixar pai, vou com o Paulo, (amigo de infância, até hoje), ele me leva até lá”.

Depois me lembrei que ele precisava de alguém que o levasse até a delegacia.

Foi e ficamos aguardando sua volta, naturalmente, com a moto. Só que já era quase noite e eles não tinham voltado. Telefonei pra casa do Paulo, ele atendeu e não sabia como explicar por que o Maurício ficou retido na delegacia:
– “Oh, ‘seu’ Modesto, deve ter sido problemas com documentação… Daqui a pouco ele vai estar em casa”.

Não me agradou a resposta do Paulo, achei que havia alguma coisa errada, falei com a Myrtes que ia até a delegacia. Antes, telefonei pro Pascoal, filho de um antigo companheiro nosso, no Brás, delegado, lotado na delegacia da Rua Brigadeiro Tobias (naquela época). Chegando a delegacia, olhei no pátio e vi a moto encostada, em um canto. Apresentei-me, o delegado de plantão estava lá, me atendeu e perguntei onde estava meu filho.
– “Seu filho, o Maurício…?”.
– “Sim”
– “O… Senhor é o pai dele?”.
– “Não, eu é que sou o filho dele… Vamos deixar de lorota meu amigo, meu filho veio aqui, respondendo um chamado de que a moto foi encontrada e ele veio para retirar… Agora estou vendo a moto no pátio, que fim levou meu filho, pó?” – respondi.
– “Seu filho está detido, por ordem do delegado titular…”

Neste momento, meu sangue começou a ferver:
– “Mas, qual foi a razão da detenção?” – comecei a gritar.
– “Calma senhor Laruccia, o Doutor (não lembro o nome do velhaco, vai este no lugar) Cordinólio está para chegar, vai explicar tudo para o senhor”.

Ele chegou logo, com um sorriso largo na face, retrato vivo da hipocrisia em altíssimo grau e as mãos estendidas, querendo apertar a minha. Não estendi, queria saber do meu filho, era só o que me interessava:
– “Senhor Laruccia, nós, com encargos espinhosos, tentamos manter a ordem, mas ás vezes cometemos exageros, seu filho só foi detido, mas nada de violência foi cometida”.

A menção "violência" me deixou, não só preocupado, mas também com medo:
– “Mas, por que, pô, insisto, quero saber, por quê? Como prender alguém que, pacificamente veio retirar seu bem, atendendo um chamado vosso?”.
– “Se o senhor deixar, eu explico…”.

Fiquei em silêncio, com uma bruta de uma raiva, na expectativa do senhor Cordinólio se abrir:
– “Ocorreu o seguinte, detectamos um garoto, na praça do relógio, ai no Jaguaré, com uma moto, tentando fazer o motor "pegar". Meus homens, com a queixa registrada, detiveram o menor, mas por causa da idade, não puderam prendê-lo. O garoto contou uma história pra se livrar do flagrante. Disse que conhecia o dono da moto e que ele havia lhe emprestado pra dar umas voltas por aí, no Jaguaré. Chegando seu filho, perguntei se ele conhecia o garoto. Seu filho negou, queria ver o garoto, expliquei-lhe que não podia detê-lo. Depois, perguntei a ele: “Quem me garante que você não emprestou mesmo a moto para o garoto e inventou essa história de roubo, pra fugir da sua implicância no caso”. Enfureceu-se, começou a gritar, xingando todo mundo, acalmei-o e o mandei esperar no "banheiro". Traga o Maurício Geraldão e devolva a moto dele”.

Maurício apareceu, seu rosto lívido, branco, assustado, como se tivesse visto um espetáculo de horror. Não me contive, com os punhos fechados, perguntei a esse doutor Cordinólio:
– “O que vocês fizeram com meu filho seus…?”.

Nisso, o Maurício me segurou, impediu que eu fizesse qualquer coisa:
– “Deixa pai depois eu explico, pelo amor de Deus, não faça nada, vamos embora”.

Mais tarde fiquei sabendo pelo Paulo o que eles, realmente tinham feito. Ele não quis me contar nada, na hora, para não cometer nenhum desatino.

O salafrário do delegado, logo que viu o Maurício, foi dizendo que ele voltasse só na segunda-feira que ele já estava de saída. O Maurício reclamou, dizendo que precisava da moto pra trabalhar na segunda feira:
– “Ela está no pátio, eu vi, vocês me chamaram, eu…”.
– “Olha aqui, garoto, vá embora senão te ponho atrás das grades… Pare de gritar senão…”.
– “Se não o quê? Quero minha moto de volta…”.

O Mauricio nunca me contou tudo, não estava habituado enfrentar estas situações naqueles tempos de perversidade gratuita, levou uma surra daquelas, safanões e rasteiras como se fosse um marginal qualquer (fiquei sabendo disso só depois, pelo Paulo, que levou uma tremenda bronca minha por não ter me contado tudo) e não podia falar nada.

Com a oportuna intervenção do Pascoal, que tinha um cargo superior ao do famigerado Cordinólio, liberando o Maurício. Soube depois, pelo próprio Pascoal que o "distinto" delegado, sofreu muito nas mãos dos superiores. Vocês acreditam? Eu, não.

A arrogância, desprezo e brutalidade devem ter causado muitas mortes de inocentes. Lembram-se do Wladmir Herzog? Nunca vou esquecer tamanha covardia, brutalidade animalesca, nem na idade média se registrou tamanha selvageria.

E-mail: [email protected]