Anhanguera – Uma lição tirada na sala de aula

No início dos anos 60 eu já morava no bairro da Lapa: Rua Albion. Naquela época os colégios mais disputados eram da escola pública. Quatro deles se destacavam como os melhores: Caetano de Campos, Aplicação, Fernão Dias e Anhanguera, para não falar no Rio Branco, pois este era particular.

Prestei exame de admissão ao ginásio e entrei (que sucesso!!! Não era aluno aplicado, mas inteligente e aprendia com facilidade nas salas de aula). Entrar numa excelente escola pública era coisa disputada quase que a tapa… Era como entrar numa universidade gratuita nos dias de hoje.

Assim, ingressando no Anhanguera, presenteei meus pais com essa facilidade.

Tenho muitas histórias para contar dessa época. Hoje vou recordar um caso que se passou comigo no segundo ano do ginásio. Revelei-me um artista plástico aos dois anos e meio e daí em diante nunca mais parei de desenhar… Minha mãe odiava esse fato, alegando que artes plásticas era profissão de marginal e que eles costumavam morrer aos trinta anos, de tuberculose. Mas, meu pai, ao contrário. Orgulhava-se do fato e vivia me presenteando (sem que minha mãe soubesse) com estojo de tinta óleo Talens (tinta importada), telas, pincéis, aquarelas, aerógrafo etc… Ele achava que este era um dom que Deus havia posto em minhas mãos e que ninguém poderia proibir.

Assim sendo, acabei ficando conhecido como um ótimo desenhista nos círculos que frequentava, fosse no meio familiar, religioso, entre os vizinhos e amigos, mas principalmente na escola, onde eu era famoso por realizar retratos e caricaturas dos colegas e professores.

Da. Alice, professora de desenho, e Da. Gacy, professora de ciências e esposa do Dr. Cezar (diretor da escola), eram profundas conhecedoras de meus talentos artísticos. A mestra de Ciências, então, até tirava proveito desse fato, pois era eu que desenhava os cartazes ampliados do livro de estudo, que ela utilizava em suas aulas (tudo feito em cartolina, bico de pena e nanquim). A professora de desenho, Da. Alice, sofria de distúrbios e acabou suicidando-se ao se jogar do viaduto Maria Paula no final do primeiro ano do ginásio (talvez nossas loucuras estudantis tivessem até contribuindo um pouco para o fato, mas a ingenuidade nunca nos deixou levar essa culpa).

Portanto, no segundo ano do ginásio, novo professor foi admitido: Professor Osny. Neurótico de guerra, mal humorado, uma verdadeira caricatura humana de si mesmo. Careca, olhos esbugalhados, óculos de fundo de garrafa… Nos pregava grandes sustos, quando ao passar aviões por cima da escola, se atirava ao chão aos gritos de "Bomba! Bomba!".

Quase no fim do primeiro trimestre ele nos deu uma incumbência: faríamos, cada um de nós, um desenho a mão livre. Serviriam para notas escolares e para uma exposição que ele realizaria no pátio da escola.

Um colega meu roubou um retrato que eu fizera de uma atriz de cinema e o apresentou sem problema algum. Eu fiz uma paisagem colorida a lápis de cor: uma casa, montanhas ao fundo, um caminho, coqueiros, nuvens, revoadas de pássaros e um colorido pôr de sol.

Pois bem, entreguei o trabalho e, passado alguns dias, eu estava assistindo a uma aula de português da Professora Irene, quando o silêncio foi irrompido por uma brusca abertura de porta, e surge o maluco professor Osny, que pede licença à professora, pedindo para que eu me levantasse: "Sr. Roberto (vociferou ele), quem fez este desenho?". Sem culpa alguma respondi que eu mesmo havia feito. Ele agitava o papel para a professora, dizendo que era mentira, que ali tinha "mão de gato" (eu nem sabia o que era aquilo, mais tarde vim a saber que se usava a mão de gato para roubar o peixe). Que o desenho não havia sido feito por mim e pediu licença para me conduzir à diretoria. Assim foi feito.

Ao chegarmos à sala do Dr. Cezar (marido de Da. Gacy), ele repetiu a cena me chamando de mentiroso. Que o desenho havia sido feito por um adulto, pois uma criança de quase doze anos não poderia entender das cores, luzes, sombras e principalmente da perspectiva que a arte apresentava. Me chamou de moleque mentiroso, empurrou minha cabeça quase que com um tapa.

Eu, vendo que a coisa não iria parar por ali, pedi licença e disse ao diretor que provaria que o trabalho fora feito por minhas mãos. Bastava que me dessem um lápis e um papel. O diretor perguntou ao professor se isto seria suficiente, no que o Osny respondeu: "Eu duvido, mas em todo o caso????!!!…".

O diretor cedeu um papel e um lápis e também seu lugar na mesa da diretoria. Expliquei que só não o faria colorido, pois não tinha os lápis de cor para tal, e em poucos minutos reproduzi de memória o mesmo desenho em branco e preto.

Ao ver o resultado o professor se calou. O diretor explicou que já sabia dos meus pendores artísticos devido aos trabalhos de ciência, e perguntou se estava resolvido o caso. Numa voz murcha, o Osny respondeu que sim.

Mas eu, inconformado com a injustiça, disse que não estava resolvido não! Contei o que se passou na sala de aula de português, me apresentei como caluniado publicamente, exigindo que ele fosse se retratar e se desculpar perante os meus colegas, já que eu provara minha inocência.

Dr. Cezar reconheceu a injustiça e disse que a retratação seria feita na sala de aula, e para lá nos dirigimos. Ao entrar, o diretor foi logo explicando o ocorrido aos colegas. Falou que o professor estava lá para se desculpar e passou a palavra ao mestre, que balbuciou um murcho pedido de desculpas. Eu, me sentindo um paladino da justiça, disse que não havia ouvido e pedi que ele falasse mais alto. Vermelho e com as veias do pescoço quase estourando, ele afirmou o pedido de desculpas e eu respondi com um gesto de aceitação.

Na primeira aula de desenho daquela semana, o Osny entrou, fez a chamada e pediu para que eu me dirigisse até sua mesa. Com um ar sombrio disse: "Sr. Roberto, de hoje em diante o senhor está proibido de assistir as minhas aulas. Não quero mais vê-lo aqui dentro!".

Eu respondi que tudo bem, pois provei que não precisava das aulas dele, já que havia mostrado que sabia desenhar. Mas que as notas eram decisivas para a aprovação no ano letivo, e eu não iria repetir o ano por causa de uma matéria na qual ele mesmo tivera que reconhecer que eu era bom. Ele pegou o caderno de notas e preencheu mês por mês até o final do ano com as notas dez. Perguntou se estava bem assim e bruscamente fez um gesto para que me retirasse. Assenti com a cabeça num gesto de confirmação.

Assim sendo, no primeiro trimestre do ano, eu já estava aprovado com a nota máxima até o final do ano, e estava livre das aulas chatas do Professor Osny e suas loucuras.

Mas o fato teve seu lado desagradável: durante a dispensa dessas aulas, eu tinha que ficar sozinho no pátio da escola, sem ter o que fazer…

Foi aí que eu aprendi que prêmios nem sempre são favoráveis e podem ter seu lado desagradável. Uma lição para toda a vida.

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