Hábito comum das famílias paulistanas era sair para comer fora. Em nossa casa por dois motivos, a falta de carro e o sistema de economia forçada, era raro praticarmos essa rotina.
Meu pai fazia com frequencia a seguinte brincadeira, "E aí molecada, vamos comer fora hoje?" Ao que nós gritávamos com todas as forças: "Vamos, vamos, vamos…". Aí ele com a maior desfaçatez dizia: "Mulher, bota a mesa no quintal e vamos todos comer lá fora!" E nós murchávamos como pé de couve sem aguar. "Ah, isso não!" Era um tal de moleque "bicudo" para todo lado.
Mas o destino mudou as coisas um pouco lá em casa, quando papai arrumou um emprego numa construtora alemã, e eventualmente ele levava o carro do diretor para lavar e fazer troca de óleo. E assim durante todo o final de semana, pedíamos sem parar para ir passear. Nosso pai era muito responsável e quase sempre dizia que não. Além do mais, o carro era coisa fina, para poucos, um Ford Fairlane 500 ano 1959; pelo seu tamanho devia pesar umas três toneladas! Em nossa Rua Borba Gato, no bairro de Pinheiros, todos ficavam maravilhados com aquele grande navio verde e branco!
Mas algumas vezes saímos de casa no domingo para almoçar num restaurante de estrada, onde serviam churrasco e havia um enorme parquinho de brinquedos infantis. Ficava no Km. 22 da estrada de Osasco e era uma grande viagem para nós. A recordação não muito agradável era que minha mãe não nos deixava ir para o parquinho logo depois da refeição, porque a comida precisava assentar; eu e meu irmão não queríamos nem saber, íamos escorregando para o lado da porta e a festa do parquinho era bem maior do que aquela da mesa. E naquela farra infantil nem percebíamos quando nosso pai, sempre muito severo, chegava de sopetão e fazia valer a ordem de mamãe, esquentando os pandeiros da molecada, e isso nos obrigava a ir sentado de lado, na volta para casa. Bons tempos!
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