Meus amigos, em 1968, o Clube Aliperti jogava normalmente em seu campo no
bairro da Água Funda, perto do Zoológico, nos sábados à tarde.
O 2º quadro, chamado cascudão, estava invicto há mais de 50 partidas. Já o 1º quadro não detinha tanta invencibilidade.
Depois de tratativas entre as partes ficou estabelecida uma data em que o
Quitandinha, acho que era do bairro do Paraíso, timaço na época, jogaria com o Aliperti. O Quitandinha aceitou pelo desafio da partida, de manter a invencibilidade, e também pela fama de bom time do Aliperti. Um clássico da época da várzea.
Lembro-me que um desenhista que trabalhava na Siderúrgica Aliperti começou a fabricar cartazes chamando a comunidade para assistir este grande jogo.
Todos os bares e snookers colaram os cartazes.
No cascudão do Quitandinha jogava um colega meu da 4ª série ginasial do Ateneu Brasil. Craque de bola, mas só tinha lugar no 2º Quadro. Para vocês verem que também naquela época tínhamos mais jogadores bons de bola. Fica implícito que a quantidade de campos existentes na época favorecia isso.
No dia do jogo, o campo ficou circundado por quatro filas de torcedores,
público que muitos jogos profissionais não recebem. Dois jogadores do Quitandinha, impressionados, me perguntaram: sempre vem tanta gente aqui ver os jogos? Eu falei que este jogo em especial tinha mexido com o bairro e por isso tinha tanta gente. Tinha mais gente que nos festivais.
Atrás dos torcedores, muitos carrinhos que vendiam caipirinhas, algodão-doce, queijadinha, churrasquinho, pipoca entre outros. Até as menininhas do pedaço estavam lá, um tanto retraídas da massa, mas estavam.
Nunca me esqueci destes jogos. O melhor jogo foi entre os cascudos, vitória do Aliperti por 1×0, em um jogaço. O segundão, depois de ter feito o gol, ficou lá atrás segurando a invencibilidade. Não foi fácil.
No jogo principal deu para perceber as divididas violentas entre os times. Vi a canela do ponta do Aliperti rasgada pelas travas adversárias.
Verdadeiro jogo de bandido. As divididas eram de sola de chuteira contra sola de chuteira.
Quem jogava no gol do Quitandinha tinha sido goleiro do Goiás. O nível era mais ou menos assim. No final, 1×1, com os times administrando o medo, aceitaram o empate.
Naqueles tempos era assim. Será que todos nós vivemos um pouco destes jogos de várzea?
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