Corria o final do ano de 1963, eu tinha então quase quatorze anos. Ali na antiga Av. Cabuçu, hoje Marechal Eurico Gaspar Dutra, na minha querida Parada Inglesa, no salão, ao lado da Capelinha de São José, perto de onde antes ficava o Grupo Escolar Frei Antônio Santana Galvão, todo domingo à tarde havia sessões do cineminha. Um cineminha mesmo, de bairro, onde durante uma hora e meia, mais ou menos, passavam filmes de seriados e desenhos e outros que tais.
Nesta época, meu irmão mais velho namorava uma moça que tinha uma irmã mais nova, de mais ou menos uns onze anos que era amiguinha de uma mocinha dos seus treze anos também, chamada Orlanda (nós a tratávamos de Landa).
Muito bem, em um belo domingo de outubro eu cheguei no cineminha e encontrei as duas. Do lado da Landa havia uma cadeira vazia onde eu sentei e comecei a conversar com elas. Iniciada a sessão, nós nos calamos e passamos assistir o que se apresentava, e, eu juro que sem saber bem por que, pus o meu braço direito por sobre os ombros da Landa e ali o deixei por toda a sessão.
Quando acabou o cineminha, a gente se levantou e eu voltei a por meu braço sobre os ombros da Landa e fomos andando. Ainda que morasse em direção diversa da delas, eu fui andando em direção a casa das duas, sempre com o braço por sobre os ombros da Landa. Falávamos sobre um monte de coisas, menos sobre aquele braço nos ombros dela.
Quando a gente estava chegando perto da rua da casa dela, que naquele tempo chamava-se Rua Nova Zelândia (hoje se chama Cap. Sérvio Rodrigues Calda), a Landa disse: “Bom agora você tira o braço daí, que eu não quero que meu irmão saiba que a gente está namorando.” O que eu fiz incontinente, e fomos andando um do lado do outro (mas a Hilda junto).
A Hilda era a cunhadinha do meu irmão. Quando a gente chegou perto da casa dela, ela me disse: “Bom, agora é melhor você voltar daqui. Tá bom. Domingo que vem a gente se encontra lá na entrada do cineminha mas, se der, durante a semana passa por aqui só pra eu te ver um pouquinho.”
Respondi que estava tudo bem que se desse eu passaria perto da casa dela mas que, de qualquer forma, a gente se encontraria domingo seguinte no cineminha. E voltei para casa. Só no caminho de casa é que caiu a ficha e eu pensei: “Ah… Então a gente está namorando.”
Foi assim que eu tive a minha primeira namorada.
Um namoro ingênuo e bonito que durou quase um ano e que o máximo que rolou foi passeios de mãos dadas ou beijos no rosto, e olhe lá! Na boca, nem pensar.
Acabou porque eu comecei achar que namorar dava muito trabalho, afinal, muitas vezes eu queria ir jogar bola e não podia, queria ir jogar taco e não podia, queria ir na quermesse sozinho e não podia porque ou ela queria ir junto, mas não podia ficar junto de mim ou porque o pai dela não deixava que ela fosse e ela não queria que eu fosse sozinho.
Muitas vezes tive de sair correndo para que os parentes dela não nos visse juntos! Mas que diabo é isso? Sou homem ou um saco de batatas que tem de fugir dos outros? De repente eu comecei achar que mulher era um bicho muito complicado, não gosta de jogar bola, de jogar taco, se vai não pode ficar junto, mas se não vai eu também não posso ir, namora comigo, mas ninguém pode saber… Ih… Isso de namorar dá muito trabalho. E assim acabou, mas ficou para sempre na minha lembrança.
Hoje nós dois somos grandes amigos e sempre que nos encontramos damos muitas risadas lembrando que essa coisa de namorar dá muito trabalho mesmo.