Nas águas de março, quando amaina o verão e principia nova estação, a leve brisa prenunciando a suavidade do clima outonal que se aproxima, vem-me à memória os tempos de outrora, dos então longínquos sertões da noroeste que, em pleno coração da terra bandeirante, cobertas pelas densas matas virgens, às margens do rio Sucuri, surgia um pequeno povoado fundado por bravos pioneiros.
Terra fértil, água abundante, clima quente, vegetação densa, animais silvestres e os terríveis aborígenas formavam o cenário dessa região ainda inóspita.
Lá nascemos com sonhos e cheios de esperanças, nossos pais, ansiando por um novo porvir, para São Paulo, então uma principiante metrópole, vieram e a mesma nos recebeu de braços abertos.
No Brooklin/Parada Petrópolis fomos morar.
Novas amizades, hábitos diferentes, mas nada que pudesse impedir de nos adaptarmos, principalmente no que tange a novos amigos e ao clima.
O calor ainda inquietante e a chuva não torrencial caia aqui como lá e meu pai dizia:
-"Estas são as brandas águas da natureza que caem para suavizar o calor."
Brandas águas, pai?
-"Sim! E até tem uma canção com este nome: Águas de Março…"
As ruas ainda de terra absorviam as chuvas, exalando o frescor da terra molhada e as excedentes, enxurradas formavam.
O tempo passou como tudo passa nesta vida.
As ruas se transformaram, o frescor da terra molhada desapareceu, as enxurradas terra adentro nas tubulações agora seguiam o seu rumo…tudo mudou…
Nossos pais já se foram e os amigos, pouco a pouco foram se dispersando e cada qual seguiu para onde a estrada do destino os levou… Só restaram as lembranças…
É o vento ventando…
São as águas de março, fechando o verão…
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