Afinal, é Zé Bimba ou Zé Urubu?

Quem já leu algumas histórias minhas, sabe que eu nasci, cresci e vivi na Parada Inglesa. Foram mais de 47 anos em um mesmo lugar, portanto, tem muita gente de lá que eu não me lembro de ter conhecido. 
 
Desde que me conheço por gente, eu sempre estive perto destas pessoas. São camaradas que nasceram, cresceram e sempre viveram lá. Um destes camaradas é um querido amigo que chamamos de Zé Bimba. Ele está também com uns 64 ou 65 anos, assim como eu.
 
Assim como quase todos da nossa geração, ele também foi office-boy. Em nossas andanças de “boy”, volta e meia a gente se cruzava, ele indo para seu lado e eu para o meu.
 
Houve um dia que nos encontramos lá no conjunto Nacional, e eu tinha de ir à Fundação GV, logo ali na saída do túnel da Nove de Julho. Como estávamos adiantados, resolvemos ir a pé, seguimos até o MASP e descemos. Quando chegamos próximos ao túnel, ele quis atravessar pela passarela, mas eu, com pressa, queria ir pelas pistas mesmo, ele ainda disse:
 
– Marcão, vamos pela passarela, é mais seguro.
 
Mas eu teimoso fui pelas pistas mesmo. Não deu outra, veio um Karmann Ghia e me pegou em cheio. Ainda bem que o carro era baixinho e o motorista me viu de longe e conseguiu frear. O choque foi amenizado e eu só cai no chão, não aconteceu nada grave. O Zé veio correndo até mim, falando:
 
– Eu disse, eu disse que era perigoso, eu disse.
 
Levantei, me livrei do tumulto e fui fazer a minha parte. E o Zé ali, buzinando no meu ouvido.
 
Passou o tempo e num belo dia, lá estava eu na fila do Banco Mercantil de Descontos (lembram-se dele?), com minha pastinha de boy (aquela que tinha dois elásticos de cada lado, lembram?) cheinha de papéis, quando de repente, bem atrás de mim quem aparece? O Zé Bimba.
 
– E ai Marcão, tudo bem?
 
– Tudo bem Zé.
 
E conversa vai, conversa vem. Fiz a minha parte, esperei que ele fizesse a dele e saímos do Banco. Na saída ele disse:
 
– Marcão, fecha os elásticos da sua pasta que ela está aberta.
 
Eu disse que depois fechava. Não deu outra: mal chegamos à calçada, uma velhinha que vinha com o guarda-chuva aberto contra o vento – porque naquele dia garoava forte, uma garoa que hoje a gente não tem mais em São Paulo -, não me viu e deu-me o maior “encontrão”. Pronto! A pastinha abriu, os papéis voaram todos, e lá fomos nós, correndo atrás dos ditos cujos, em plena Rua XV de Novembro. A danada da velhinha ainda me chamou de cego. Ainda bem que recuperei toda a papelada! E o Zé buzinando no meu ouvido…
 
– Eu disse para fechar a pastinha, não disse?
 
O tempo passou e nunca mais encontrei o Zé. Nas nossas andanças de boy, continuava a vê-lo lá na Parada. A gente cresceu, cada um seguiu o seu caminho.
 
Num belo dia, eu já estava com uns vinte e poucos anos, tive de ir ao correio, lá no Vale do Anhangabaú, buscar uns livros que havia encomendado. Quem encontro na esquina da Praça do Correio com o Vale do Anhangabaú? O Zé Bimba.
 
– Ô Marcão, que você faz por aqui?
 
– Ô Zé tudo bem?
 
E conversa vai, conversa vem, ele me convidou para tomar um chope ali no Guanabara, que ficava do outro lado da Praça. Quando eu pus o pé no meio fio para atravessar, veio uma Kombi com tudo, para virar e subir a São João, e o espelho dela me acertou bem no ombro. Desequilibrado fui me estatelar na calçada do Correio, perto das escadarias do prédio. Livros para todo lado, multidão burburando, o Zé gritando, um tumulto total. E o bandido da Kombi nem se quer parou.
 
Eu levantei, me recompus, peguei meus livros, olhei para o Zé e disse:
 
– Zé, pelo amor de Deus. Eu gosto de você, você é meu amigo e um cara super legal, mas pelo amor de Deus, quando você me encontrar no centro, nem olha para mim, porque aqui no centro para mim você não é o Zé Bimba, é o Zé Urubu. Nunca vi me dar tanto azar….
 
Ele caiu na gargalhada, o povo que estava em volta não entendeu nada e fomos lá tomar nosso chope. Ainda bem que o chope veio geladinho e não aconteceu mais nada.