Em 1958, eu então com 10 anos, em manhãs de domingos, ia com meu pai passear no Aeroporto. Como morava na Vila Mariana, tomava o bonde 66-São Judas Tadeu e ia até o ponto final. De onde – andando um pouco à frente – se chegava "próximo" à cabeceira da pista. Nesse percurso, passava em frente ao então Grupo Escolar Marechal Floriano (Rua Dona Júlia), onde fiz o curso "primário". Como não lembrar da figura simpática de "seu" Osvaldo, um esguio guarda-civil, baiano, que ficava incansavelmente zelando pela segurança das crianças, na travessia em frente à escola, parando carros, ônibus e bondes. Àquela época, raríssimos eram os semáforos. Muitos lembrarão, os guardas-civis, com seus fardamentos azuis, que cuidavam do trânsito, usavam um "quepe" diferente do tradicional: eram aqueles em forma de "calota", brancos, com abas. Desde a Domingos de Morais, até o final da Avenida Jabaquara, os bondes trafegavam por um largo corredor central, lembram-se? E dos meninos (de rua) que neles se dependuravam, perigosamente, como se falava, "chocando" os bondes? Muitas vezes, final trágico! À época, a Praça da Árvore, pela qual necessariamente se passava, ainda era conhecida como a "Primeira Seção", muito longe de ser o grande universo de lojas, da atualidade. Outro modo também de chegar ao lindo Congonhas era através do ônibus 48-Paraíso, até o Anhangabaú, e então tomar o 113-Aeroporto. Galeria Prestes Maia: logradouro onde, por certo, foi instalada uma das primeiras escadas rolantes de São Paulo. E onde, entre outras coisas, havia, num canto, uma grande maquete de uma estátua, de São Paulo (o santo), que – dizia-se à época – seria instalada no topo do Jaraguá! No caminho, passávamos, na Rua Curitiba, pelo então "Parque Infantil do Ibirapuera", como se chamava um dos precursores das atuais EMEIs, no qual passei um pouquinho da infância. Que, àquele tempo, dispunham, para a garotada, de assistência médica e odontológica! Retomando, pois, a viagem, o 113-Aeroporto, via Avenida Nove de Julho, me proporcionava uma surpresa: à altura da Praça 14-Bis, numa encosta, um curioso tapume de outdoor; era uma propaganda, creio que da Studebaker, um caminhão (tamanho real!) incrustado no tapume! Com motorista na boléia; e a caçamba basculante, intermitentemente, baixando e subindo! Esse anúncio lá permaneceu por muito tempo. Chegando ao Aeroporto, era desfrutar não só do "espetáculo" de pousos e aterrissagens, como do próprio logradouro: simplesmente lindo! Nomes como KLM, SAS, Alitalia, Iberia, Air France e Pan Am, tão presentes à época, migrariam – com o advento do jato – para Viracopos. Seriam os 707 e DC-8 no lugar dos Constellations e DC-7… E como não lembrar daquele possante farol, de auxílio à navegação, no topo de um dos hangares: girava 360 graus, lançando dois fachos – diametralmente opostos – um de cor branca, outro meio verde, meio azulado… Embora moleque, os traços arquitetônicos do Aeroporto e seus equipamentos me chamavam a atenção. Por exemplo, muitos se recordarão, dos postes de ferro, do tipo "ornamental", que orlavam toda a calçada à frente de Congonhas. E como esquecer dos relevos que maravilhavam a parede exterior do Aeroporto, glorificando a conquista do ar – e que, infelizmente, foram reduzidos (a parede e os relevos) a pó… É isso: um simples passeiozinho era o suficiente para encantar um paulistano de 10 anos. Saudade!
e-mail do autor: [email protected]