Adhemar um mito?

Faço aqui um pequeno resumo dos fatos ocorridos durante a década de 60. Conheci pessoalmente Adhemar de Barros na recepção comemorativa do aniversário da “Prise de La Bastille”, "A Tomada da Bastilha," também conhecida como "A Queda da Bastilha", no ano de 1962, nos salões de festas do Jardim de Inverno Fasano, no Conjunto Nacional na Avenida Paulista, evento patrocinado e comemorado todos os anos aqui em São Paulo pelo consulado francês todo dia 14 de julho e que se tornou um fato marcante na República Francesa.

Eu e o jornalista Ismael C. Gomes, diretor e editor de uma popular revista de São Paulo, mais o Jean Levi, recebemos na redação da editora um convite especial do consulado francês para participarmos da festa. Na ocasião, estavam presentes, entre outras autoridades, o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, o Brigadeiro José Vicente de Faria Lima, Adhemar Pereira de Barros, o deputado estadual Orlando Zancaner, o comediante José Vasconcelos, o cônsul geral da França no Brasil e alguns convidados vindos especialmente do Senegal, liderados pelo governo de Léopold Sédar Segnhor, que estava na época governando o país quando o Senegal, ex-colônia francesa, tinha sido proclamado independente em 1960 por conta de um apelo feito por Léopold ao então presidente da França, o General Charles de Gaulle.

Mas, voltando ao Adhemar de Barros, lembro-me quando de um comício realizado no Alto da Lapa, pelos idos de 1954, no topo da então esburacada e poeirenta Avenida São Gualter, próximo à Rua Cerro Corá, no palanque montado defronte ao extinto Hospital Souza Campos, quando o Adhemar, ao olhar para a escuridão das margens do Rio Pinheiros, na época ladeado de um emaranhado de árvores, ciprestes, arbustos e lagoas espraiadas pelas margens, interrogou:

– Meus caros patrícios, macacada amiga! O que é aquilo lá embaixo naquela escuridão toda, nas brumas das trevas fantasmagóricas em volta daquele curso d'água?
– Ali é por acaso a cidade dos sapos? – disse em tom de gozação. E apontando o dedo indicador em riste, olhando interrogativamente para a populaça do comício, completou:
– Vou mandar iluminar todo o lugar.

Naquela época (1954), não havia ainda as marginais do Rio Pinheiros, não existia a Praça Pan-americana, muito menos o loteamento da Cia City; apenas o local era cortado pela antiga Estrada da Boiada, atual Avenida Diógenes Ribeiro de Lima que ligava o bairro do Alto da Lapa até o bairro de Pinheiros. Uma das características fundamentais do Adhemar de Barros era a ênfase no planejamento das ações de governo, no qual foi um dos pioneiros no Brasil.

Seu estilo político de governar era o de "tocador de obras" e seu conjunto característico visual eram as mangas da camisa arregaçadas e os suspensórios segurando a calça. Esse estilo de "tocador de obras" e de amassar barro como no antigo bairro do Alto da Lapa retornaria posteriormente, nas gestões de outros governadores, como o do Paulo Maluf e do falecido Orestes Quércia.

Outra frase cunhada pelo Adhemar e de grande efeito político era de chamar a atenção na época da Faculdade de Filosofia e Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo de "O Abacaxi" deixado pelo doutor Armando Sales de Oliveira, uma grande concentração e reduto de comunistas. Outro slogan adotado pelo Adhemar na sua campanha eleitoral, no entanto não assumido abertamente, era "Adhemar rouba, mas faz" que, apesar de ser uma frase cunhada por seu adversário Paulo Duarte, acabou por ser lema de sua própria campanha eleitoral para prefeito de São Paulo, em 1957, se promovendo em cima das inúmeras acusações de corrupção, na época chamadas de "negociatas": caso da compra e venda de automóveis Chevrolet com dinheiro público e revendidos para particulares.

Era acusado pelos seus adversários de desvio de verbas públicas nos períodos em que era chefe do executivo paulista que era conhecido pelo slogan "A Caixinha do Adhemar" para financiar a sua campanha eleitoral. Em resposta à crítica, os adhemaristas de plantão tinham um refrão muito popular composto pelo Herivelto Martins e Benedito Lacerda, ambos compositores de fama: "Quem não conhece?/ Quem nunca ouviu falar/ Na famosa "caixinha" do Adhemar./ Que deu livros, deu remédios, deu estradas./ Oh! Caixinha abençoada".

O nosso Adhemar de Barros gostava muito de eleições e disputava todas que podia, mesmo quando tinha poucas chances de ganhar. Foi alvo constante de caricaturas e de humoristas de plantão e do bom humor do povo, que apelidou um pequeno túnel por ele construído, no Centro da cidade, próximo aos Correios e Telégrafos, chamado de "O Buraco do Adhemar", que ligava o Anhangabaú à Avenida Prestes Maia passando debaixo da Avenida São João. A dupla caipira Alvarenga e Ranchinho, parodiando um anúncio radiofônico do remédio "Melhoral", cantavam "Ademá, Ademá, é mió e num faiz má".

Outra lembrança do velho Adhemar no Estado Novo foi quando foi nomeado interventor federal do estado de São Paulo pelo então presidente Getúlio Vargas, de 27 de abril de 1938 a 4 de junho de 1941. Quando era interventor do estado, costumava seguir salmodiando orações pelas ruas do Centro de São Paulo, segurando o estandarte do Santíssimo Sacramento na procissão que saia da Igreja de Nossa Senhora da Consolação dirigida na época pelo então vigário Monsenhor Francisco Bastos, um são-paulino fanático de carteirinha, nascido em 11 de setembro de 1892, amigo pessoal do Adhemar e que ajudou a fundar o São Paulo Futebol Clube.

Seu entusiasmo pelo tricolor do Morumbi era tão grande que costumava dividir o tempo entre as missas na Igreja da Consolação com o futebol. Em 15 de agosto de 1952, abençoou o terreno onde oito anos depois seria inaugurado o Estádio do Morumbi. O Monsenhor Bastos era amigo pessoal do vice-governador e governador interino do estado de São Paulo, o Porfírio da Paz, um dos fundadores do São Paulo Futebol Clube, considerado um torcedor símbolo do clube nos anos de 1940 e que foi o autor do hino oficial do São Paulo em 1936.

Curiosamente, o Adhemar de Barros e seu eterno rival, o Jânio da Silva Quadros, eram adeptos à maçonaria como se vê na lista de maçons famosos nos sítios da maçonaria brasileira. O Adhemar de Barros foi iniciado maçom no dia 12 de dezembro de 1949, pela "Loja Guatimozin 66", conforme consta nas atas daquela loja. Na época, a rivalidade entre o "adhemarismo" e o "janismo" marcou época em São Paulo nas décadas de 1950 e 1960.

Essas rivalidades e os comícios pelo interior de São Paulo entraram para o folclore político do estado de São Paulo e do Brasil e se tornavam acontecimentos inesquecíveis para os paulistas e paulistanos daquela época. Um dos hilários comícios foi o realizado em Mogi-Guaçu, cidade a ser visitada por Adhemar de Barros e Jânio Quadros, quando o candidato Adhemar de Barros em discurso para o povo da região com gestos agressivos começou a discursar: "Macacada, entre as várias obras que fiz em São Paulo está o Hospital de Loucos. Infelizmente, não foi possível internar todos. Um desses loucos havia escapado e fará um comício nesta mesma praça amanhã." Para delírio do povo (adhemarista), a gargalhada era geral.

No dia seguinte, Jânio Quadros foi recepcionado na cidade. Um adepto janista relatou a ele tal acontecimento. No seu comício, deu o troco: "Quando fui governador de São Paulo, construí várias penitenciárias, mas não foi possível trancafiar todos os ladrões. Um deles escapou e fez um comício aqui mesmo nesta praça ontem" (para delírio dos janistas). Em um comício em Jaú, Adhemar, batendo a mão no bolso, exclamou: "Neste bolso nunca entrou dinheiro do povo!" Alguém, porém, na multidão, gritou em resposta: "está de calça nova, doutor!".

Como empresário, foi proprietário da fábrica de chocolates Lacta, além de possuir interesses na área imobiliária, especialmente na Imobiliária Aricandúva. Foi o mentor responsável pelo loteamento na capital paulista, que se tornou o Jardim Leonor, nome de sua dedicada e leal esposa.

Ajudou a desenvolver parte do bairro do Morumbi em São Paulo, na década de 1960, quando o governo do estado comprou o Palácio dos Bandeirantes e seu vice-governador Laudo Natel, então presidente do São Paulo Futebol Clube, construiu o Estádio do Morumbi. Na década de 1940, a construção do Estádio do Pacaembu por Adhemar de Barros tinha dado também origem ao bairro homônimo. Foi sócio da empresa "Divulgação Cinematográfica Bandeirantes" e da Rádio América e da Rádio Bandeirantes que mais tarde dariam origem à Rede Bandeirantes de rádio e televisão, hoje presidida por seu neto, Johnny Saad.

Foi presidente das Fábricas Redenção e Nossa Senhora Mãe dos Homens, proprietário de fazendas no interior do estado de São Paulo, da Fábrica de Produtos Químicos Vale do Paraíba, da Sociedade Extrativa de Taubaté, com plantação de cacau para a Lacta e da Sociedade Extrativa Limitada de Itapeva. Iniciaram em 1939 as obras da Rodovia Anchieta, a primeira rodovia brasileira com túneis. Iniciou as obras da Rodovia Anhanguera em 1940. Ambas as rodovias seriam duplicadas no seu primeiro mandato como governador (1947-1951). Ampliou o Aeroporto de Congonhas.

Iniciou a retificação do Rio Tietê. Iniciou a construção do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e do Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros. Construiu no complexo do Hospital do Mandaqui um hospital para portadores do pênfigo foliáceo (fogo selvagem), doença que não recebia, na época, nenhuma assistência do estado. Adhemar foi um mito, uma fantasia, uma fábula imaginária, uma alegoria, uma mitologia, uma lenda, uma história? Para muitos, não! Mas para a minha humilde opinião, acho que foi sim uma grande história de realizações, de feitos brilhantes em uma época que São Paulo ainda era interiorano e provinciano.

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