Em meus tempos de publicidade havia a tradição, creio que hoje extinta, da turma da Criação almoçar junta, quase todos os dias. Era divertido, aprofundava as amizades e o conhecimento dos bons restaurantes, a preços razoáveis.
De vez em quando, esta regra era quebrada, e partíamos para os de luxo, coisa hoje em dia quase impensável. Lembro-me de um desses casos.
Começou com o pessoal embolado à porta de uma grande agência onde trabalhei, na Paulista.
Estávamos esperando o Grande Chefe, que viria juntar-se à turma. Enquanto isso, discutíamos: onde ir?
Um agravante: era segunda feira, dia em que fecham para descanso muitos dos restaurantes paulistanos. Se estivéssemos em Roma, o dia problema seria domingo. Lá tudo fecha mesmo, e torna-se difícil até comer um sanduíche.
Mas era São Paulo, e segunda feira. Para complicar, chegou nosso chefe, grande, gordo e, como sempre, atrapalhado e indeciso. Era famoso por sua hesitação, o que era muito estranho, para quem ocupava um cargo de tamanha importância. Seu apelido era "o Príncipe Vassily". Um vacilão, realmente!
Bom, era o que tínhamos, o horário de almoço escoava-se e nada de uma conclusão.
Foi quando alguém sussurrou "e o Massimo?" A solução foi rapidamente aceita, mesmo porque a fome começava a dar seus sinais. Qualquer restaurante ou boteco, aberto, seria bem vindo, nesta altura do campeonato.
Dividimo-nos, e peguei carona com um redator. No mesmo carro vinha o Sampa, ótima pessoa e diretor de arte, ao ponto de dizerem:
– quem não gosta do Sampa, bom sujeito não é.
Ele já havia comparecido neste site, no meu texto "Japonês no Cacciatore". Grande profissional, era pessoalmente muito simples, inimigo de luxos e ostentação.
Mas, inadvertidamente, estava agora a caminho do suntuoso Massimo. Quando pisamos os degraus de mármore do restaurante, quase recuou, mas já não havia volta: lá vinha o próprio Massimo, de suspensórios e tudo, nos receber, sorridente, à entrada.
Sentamos, mas para o Sampa o caso rapidamente tornou-se um pesadelo. Em meio a tanto fausto, via-se ainda, ao fundo, almoçando, Delfim Neto, político a quem ele detestava.
Pedimos os pratos. Eram caros, mas estavam absolutamente deliciosos. Pedi, creio, uma massa com frutos do mar. E ainda tomamos vinho, para acompanhar. Sampa havia pedido o mesmo, mas ficou ali parado, calado e sem tocar na comida. O garçom ainda veio perguntar-lhe se não gostara da massa, e se não queria escolher outro prato.
– Não, não, pode deixar, está ótimo – disse, sem mover um garfo. E nada mais declarou.
Quanto mais animada se tornava a conversa, mais ele afundava, cabisbaixo, na poltrona.
Terminado o almoço, pagamos e dali saímos, sem ele ter-se dignado sequer a tomar um café.
– Pô, Sampa, mas que foi que aconteceu?
E ele: -"eu sabia que um dia isso ia acontecer! Fui assaltado em plena Alameda Santos!"
Pois é. Como disse uma brilhante escritora do site:
– Mas esses seus amigos, hein?
Pois eu declaro: pobre de quem não teve a sorte de ter amigos como esses!