Aclimação, meu segundo quintal de casa

Ali na esquina da Rua Topázio com a Paula Ney, surgiu a oportunidade de meu pai administrar um Servicentro, como eram chamados alguns postos de gasolina na época. O ano era 1962 e a empreitada trouxe dois tios para auxiliar no negócio: um tio paterno, Haylton, e o outro materno, Olavo, apelidado de "velhinho" por causa dos precoces cabelos brancos. O nome era "Posto Topázio" e a chamada bandeira, como se diz atualmente, era aquela da concha amarela com letras vermelhas.<br><br>Entre os fregueses, artistas da TV Tupi e cantores chamavam mais atenção. Lembro de um diretor da Tupi chamado Walter Tasca, que foi o primeiro cameraman da América Latina.<br><br>Entre o pessoal que trabalhava no posto, havia o Toninho-Jaú, Júlio, Ricardo, Loiro, Chora e Ovídio. Parte do pessoal tinha origem no interior na cidade de Bariri, "capital do café", que era a terra natal de minha mãe e ficava perto de Jaú. Meus avós paternos moravam a cinco minutos dali, na Rua Batista Cepelos, em um apartamento que ficava no térreo.<br><br>Quando falo quintal de casa, como no título, era porque em vários dias da semana ficava no posto e até fazia as lições de escola lá na velha mesa do escritório. Durante o dia, me revezava entre a casa do vovô, onde jogava bola em seu quintal e às vezes pela manhã íamos com ele dar um passeio pelo Parque da Aclimação e dávamos umas boas remadas no lago.<br><br>O posto era como se fosse um parque de diversões para mim, como no dia em que estacionou um enorme automóvel da marca Cadilac de cor amarela e o frentista me chamou para abastecê-lo. Rodeei o carro umas três vezes e não existia onde colocar o combustível! Virei para o frentista e falei que não tinha onde colocar gasolina. E ele, rindo muito, apertou um pequeno botão incorporado na lanterna traseira direita, e ela se abriu na vertical mostrando uma pequena tampa e o respectivo bocal para o abastecimento. Achei aquilo o máximo! E comecei aprender todas as dicas de todos os carros que por lá passavam. Os fuscas mais antigos não tinham medidores de combustível no painel, então, o proprietário levantava o capô e media o nível da gasolina com um pauzinho, e aí dizia, coloca mil cruzeiros (na época se falava "um merréis"). Os veículos da marca DKW tinham de colocar um óleo misturado junto com a gasolina, porque era um motor de dois tempos; em compensação, não havia para esses carros a necessidade de trocas de óleo do cárter. Depois inventaram o DKW com um sistema chamado Lubrimat, que misturava o óleo automaticamente.<br><br>Lembro que nas imediações do posto, todos se conheciam. Na Rua Topázio, ao lado do posto, morava o Dr. Pirayno, que era advogado e atendia o meu pai. Trazia sempre o Chevrolet Belair com um quebra-sol externo, de duas cores, para lavar e abastecer. Na Rua Paula Ney tinha a oficina mecânica do Rosário. E o Gigio que consertava rádios e TVs no bairro sempre passava por lá, pois era grande amigo do tio Haylton. Esse tio também morava no mesmo bairro à rua Dona Brígida, perto da Lins de Vasconcelos.<br><br>Nessa época, aconteceu um acidente que a família nem gosta de comentar, onde meus dois tios, Olavo, dono de uma "possante" Vespa (a lambreta que andava torta), e Haylton, que estava na garupa, sofreram quando saíram para almoçar; foi provocado por uma falha de freio e foram parar embaixo de um caminhão. Felizmente sobreviveram, mas com algumas fraturas. Não obstante esse último episódio, tenho muito boas recordações daquele que foi o meu segundo quintal de casa: o Posto Topázio, o maravilhoso parque e a casa de vovô no bairro da Aclimação.<br><br>E-mail: [email protected]