A volta do ipê-amarelo

E nosso ipê está florido, de novo! Quando o fez, pela primeira vez neste ano, houve um certo desapontamento. Havia crescido muito, e floriu só nas partes altas, tirando-nos assim a bela visão, antes possível, de suas pétalas junto à vidraça da sala.

Desapontamento em têrmos, pois o milagre de sua floração anual não é coisa para ser menosprezada. Mas as pétalas se foram, ficando o arbusto com galhos nus e expostos.

Como disse, é uma vez ao ano, só! Mas, desta vez enganei-me.

Tivemos dias de frio, de calor, de sol de verão, de chuva ininterrupta. Que estação estranha!

E o ipêzinho, quieto, ruminando sua surpresa.

Começo então notar algo curioso, brotando. Seriam flores? Eram flores, os botões agora mais abundantes, e humildes,não se limitando ás alturas ,mas descendo a poucos metros do chão.

Uma segunda florada, e mais rica e bela que a primeira!

Como se a primeira entrada da primavera, tão tumultuada, não houvesse valido, e merecesse uma segunda chance.

Agora as flores de ouro podem ser vistas de dentro de casa, e também por fora do muro. O último ipê amarelo a florir, talvez, nesta cidade.

Fico pensando como seria bom se toda gente desesperada, ou animais desvalidos, tivessem uma segunda chance, assim. Há algum tempo meu filho, estudante de veterinária, trouxe da clínica onde estagiava, um pobre papagaio.

Aleijado de uma perna, com uma asa estropiada, problemas intestinais, a ave fora abandonada lá, para ser tratada, ou para morrer. Ia ser sacrificada, mas meu filho notou que o bicho ainda lutava, tinha fome, de comida e vida. Trouxe-o então para casa.

Com remédios, com alimentação adequada, e não só a semente de girassol que tanto mal faz ao coração desses bichos, mas também com muito carinho, cuidamos de sua recuperação.

E foi uma alegria vê-lo desenvolver-se, cada vez mais forte e alegre. A princípio nada dizia, mas começou a corrupaquear, e seu assobio, a princípio fraquinho, foi se tornando poderoso.

Sou contra animais presos, mas em muitos casos eles estão tão acostumados ao cativeiro que não sobreviveriam no feroz mundo exterior. Nosso papagaio, aleijado, então não teria a menor chance.

E aqui está ele, disposto, comilão e feliz. É a segunda chance de que falei, que todo mundo merecia, e ele soube aproveitar. Que tenha longa vida, pois os papagaios bem tratados costumam viver muito, 50 anos ou mais. O ipêzinho decretou: temos uma segunda primavera. E o lourinho, uma segunda vida. Que sejam bem vindas!

Segunda canção do peregrino.

Guilherme de Almeida

Vencido, exausto, quase morto,
cortei um galho do teu horto
e fiz dele meu bordão.

Foi minha vista e meu tato;
constantemente foi o pacto
que fez comigo a escuridão.

Pois nem fantasmas, nem torrentes,
nem salteadores, nem serpentes
prevaleceram no meu chão.

Somente os homens, que me viam
passar sozinho, riam, riam,
riam, não sei porque razão.

Mas certa vez,parei um pouco
e ouvi gritar: "Aí vem o louco
que leva uma árvore na mão!"

E, erguendo o olhar, vi folhas, flores,
pássaros, frutos, cores…
– Tinha florido o meu bordão.