A visão de Deus na cidade encantada

A cidade tem seus encantos!

Tantos cantos escondidos numa cidade encantada – São Paulo.

Talvez por aqui ter chegado há pouco, me surpreendo com as múltiplas descobertas que se sucedem a cada passeio ou passagem apressada pelo cenário urbano.

Dia destes, estacionando meu carro na pequena porção da Rua Lisboa que corre junto à Praça Benedito Calixto, já enamorado da região e ébrio pela poesia tribal daquela feira de curiosidades que ali acontece aos sábados, descobri uma jóia nova neste universo metropolitano – a rara visão que se tem das cúpulas da Igreja de Nossa Senhora do Brasil, surgindo sobre a copa das acácias da região dos Jardins.

Impossível não se emocionar diante deste pequeno, minúsculo mesmo, mas significativo detalhe, só identificável sob a perspectiva dos olhos mais sensíveis.

Por mais que os interesses econômicos tenham erigido símbolos de poder e sofisticação em formato de edifícios e viadutos de concreto e aço, foi ali, alinhada ao eixo daquela pequena rua, que se destaca sobre uma suave colina, que se pronunciou, silenciosa, mais uma ode do Poema da Cidade.

A emoção é surpreendente.

O coração dispara e dá vontade de contar pra todo mundo.

É como descobrir, hoje, um ninho daqueles beija-flores que acompanharam minha infância, no quintal apertado de minha casa. Um pequeno presente espremido entre as paredes maltratadas pelo tempo e pela poluição que já acostumei a ter por companhia.

Levei meu amor pra ver o local.

Ela não me decepcionou, pois não precisei sequer descrever a cena ou explicar o significado daquela visão.

Fiz surpresa e ela não me surpreendeu – descreveu-me sua emoção sem palavras, mas num riso exposto e em lágrimas contidas que davam brilho ao seu olhar.

Aquele tornou-se um dos nossos lugares prediletos – nosso ponto de encontro com o eterno – aquela eternidade própria dos lugares e ocasiões que só existem em nossa mente impressionada pela perfeição de um momento.

Tenho medo que aquela mão gananciosa e insensível chamada progresso possa apagar esta manifestação do belo.

Me assusta pensar que podem substituir as cúpulas sagradas brotando do verde das acácias por um monte de concreto e vidro espelhado, refletindo o caos à sua volta.

Então, se assim for, da mesma forma como tive aquele beija-flor por companhia em infância, esta visão de Deus seguirá me acompanhando e só será real para mim que a conheci – eu e meu amor.

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