Em 1971, com a viagem do comediante, cantor e hoje apresentador, Raul Gil, sua esposa Carmem e seus filhos (Raulzinho e Nanci), Raul pediu para que eu ficasse hospedado em sua residência, na época situada no bairro do Ipiranga, para que assim eu pudesse concluir em seu nome (não havia ainda o telefone celular) o fechamento de um show que iríamos fazer dias depois, no aniversário da cidade de Socorro – SP.
Naquela época, Raul iniciava sua carreira de apresentador de TV e tinha um programa na antiga TV Record, ainda de posse do Velho Marechal da Vitória, Dr. Paulo Machado de Carvalho, no qual eu também participava fazendo o papel de um Robô que era o Gongo dos calouros não aprovados no concurso.
E, assim, por vários meses, estivemos juntos em shows e programas de TV em São Paulo e, é claro, também a passeios e divertimentos. Eu e ele tínhamos algo em comum: torcíamos os dois pelo Corinthians e o nosso Timão andava mal no Campeonato Paulista desse ano.
Aí, chegou o dia do Clássico: o grande Derby Corinthians x Palmeiras, estava para acontecer, e é claro nem eu e nem o Raul Gil queríamos perder a chance de ver o Timão melhorar seu desempenho em cima do grande rival alviverde.
E assim, após nossa apresentação no Programa Silvio Santos, ainda no antigo Auditório da TV. Globo-SP, situado no antigo Cine Miami na Praça Marechal Deodoro, no Bairro de Santa Cecilia, saímos às pressas rumo ao estádio do Morumbi, onde o jogo seria realizado. Pegamos a Avenida Angélica a Rebouças e ao chegarmos perto do Jóquei Clube os times estavam entrando em Campo, na altura do Palácio do Governo. O jogo começou e, aos 35 segundos de jogo, o artilheiro César do Palmeiras marcou o primeiro gol.
Estacionamos o carro rapidamente, atrasado, corremos um pouco para chegar até a entrada das numeradas e enquanto subíamos as escadas para adentrar ao estádio ouvimos gritos de gol, bombas e foguetes estourando (naquele tempo de pessoas mais civilizadas isso ainda era permitido aos torcedores). E como todos os corintianos, otimistas, pensamos: “O Corinthians empatou!” Apressamos o passo e… Vimos o Corinthians dando a saída. Olhamos para o placar e vimos que marcava 2 a 0 para o Verdão. O malucão do César fez mais um, aos 9 minutos de jogo. Ainda bem que por chegarmos atrasados a gente nem viu.
O dia estava frio e naquele momento esfriou mais ainda, passamos por um grupo de cinco corintianos sentados com um enorme cobertor enrolado nos pés e, querendo esquecer nossa decepção, ainda comentamos com o grupo desanimado dos corintianos: “É por isso que nosso Corinthians esta perdendo, corintiano é tudo uns pés-frios”.
Acomodei-me em meu assento bastante pessimista, imaginando que o meu Timão fatalmente seria goleado e justo pelo Palmeiras. Mas, a coisa ficou por aí e o placar não foi mais alterado até o final do 1º tempo.
Durante o intervalo comemos umas pipocas e então… Veio o 2º Tempo. Foi um dos mais emocionantes jogos da história, não só do meu timão, mas do futebol paulistano, paulista e brasileiro. Pareceu que o Corinthians voltou com muita vontade de estragar aquela festa verde que já se desenhava. Nem o mais otimista corintiano poderia imaginar esse desfecho, de minha parte eu até já iria sair do estádio feliz se o Timão arrancasse um empate, ou se o jogo ficasse apenas nesses 2 a 0.
Mas, aos 5 minutos da 2ª etapa, Mirandinha marca para o Timão e Adãozinho, que havia entrado nesse 2º tempo aos 24 minutos, empata o jogo, para delírio meu, do Raul e de milhares de outros corintianos, e então, quando todos os corintianos aguardavam o desempate ele aconteceu, mas foi para o Palmeiras e saiu dos pés de Leivinha aos 25 (apenas 1 minuto após o empate corintiano).
Perdendo de 2 a 0 no primeiro tempo, já era para a maior parte de torcedores corintianos saírem satisfeitos do Morumbi com esse resultado. Estava na minha intimidade pensando exatamente isso, mas nem consegui chegar ao final do meu pensamento, quando logo após a nova saída corintiana, Tião driblou meio time do Palmeiras e empatou novamente o jogo, aos 26 minutos. Para delírio meu e do Raul.
Então, o jogo ficou dramático com os dois times dando tudo em campo, os dois em busca da vitória e então… Aos 43 minutos, o grande herói da partida Mirandinha, marca e decreta a vitória Alvinegra. Corinthians 4 x Palmeiras 3.
Era a velha garra alvinegra em ação. E, é claro, sempre mais significativa quando se trata do rival e do esquadrão do Parque Antártica.
Corinthians: Ado, Zé Maria, Luís Carlos, Sadi e Pedrinho; Tião e Rivelino; Lindóia (Natal), Samarone (Adãozinho), Mirandinha e Peri. Técnico: Francisco Sarno.
Palmeiras: Leão, Eurico, Baldochi, Luís Pereira e Dé.; Dudu e Ademir da Guia; Fedato, Héctor Silva (Leivinha), César e Pio. Técnico: Rubens Minelli
Local: Estádio do Morumbi – São Paulo – SP
Data: 25/04/1971
Árbitro: Armando Marques
Público: 60.445
Vocês podem até pensar: “Puxa que memória tem o Arthur, não é nada fácil se lembrar de tudo isso nos mínimos detalhes”. Mas, isso fica muito fácil quando podemos contar com um Google amigo chamado Mario Lopomo que, atendendo prontamente ao meu pedido por e-mail, enviou-me a maioria desses detalhes técnicos (risos).
E-mail: 27.miranda@gmail