Pela boca de uma criança, o despertar das lembranças…
Mea culpa!
Pois é, venho dizendo que na festa do Natal tudo é importante, menos o aniversariante. Fui pego de surpresa por uma pergunta de minha sobrinha-neta. Não fosse ela, eu não teria voltado no tempo e resgatado este fragmento de memória.
Neste sábado, dia 18 de dezembro, casou-se o meu sobrinho mais novo, na igreja de San Carlo Borromeo (São Carlos Borromeu, paróquia da Mooca e da Vila Prudente. Não a do Belenzinho). Eu à entrada da igreja estava entretido em regular a máquina digital. Queria fazer as minhas próprias fotos do casamento.
Junto a mim, minha sobrinha-neta, filha do meu sobrinho mais velho, quieta e pensativa, olhava para o presépio. De repente ela volta-se para mim e pergunta:
– "Por que não tem Jesus no "pesépio""?
Olho para ela e depois para o presépio e digo:
– "Como não tem Jesus! Tem sim. Está lá, na manjedoura"!
– “Tem não, tio! Vem "vê""…
Faço-lhe a vontade. Olho para o presépio, vejo todo o conjunto e penso:
– "Mas, que "cazzo"! Onde estará o menino Jesus"?!”
Minha sobrinha tinha razão. Ele não estava lá. Será que o roubaram? Como é que pode?… Pode sim!… De repente sou criança de novo. Estou todo arrumado e perfumado, de mãos dadas com vovô e vovó entrando na igreja de San Gennaro, onde eu pela
primeira vez ia participar da Missa do Galo – a Vigília de Natal.
Nunca eu vira a "San Gennà" tão linda, tão iluminada pela luz e pelas velas. Rosas brancas e lírios em profusão enfeitavam o altar-mor e os nichos laterais. Aos pés de Santa Luzia, braçadas de rosas vermelhas contrastavam com as rosas e lírios brancos; San Gennaro estava envolvido por rosas brancas e palmas.
O padre estava paramentado com toda a pompa exigida pela ocasião e os sacristãos, paramentados com batas brancas de renda e saia vermelha e, com os incensórios de prata na mão, incensavam o altar e a igreja.
E o incenso era diferente daqueles dos domingos. Mais intenso, exalando um perfume delicioso.
No mezanino, os cantores do coral, vestidos com batas brancas de gola azul e o grande órgão enchiam a igreja com a música "Jesus, alegria dos homens".
Encantado, eu circulava pela igreja toda. Ora estava em frente à imagem de San Gennaro, ora em frente ao altar lateral de Santa Lucia (Luzia). Nesse passa-passa, descobri o Presépio! Tão grande comparado ao nosso, lá de casa. E mais encantado ainda, deixo-me ficar admirando as figuras. Puro encanto!… Mas, notei, faltava algo. O quê seria? Vasculho com a visão o presépio todo. E descubro!
Estava desolado. "Mancava Il Gesù bambino"! (Faltava o Menino Jesus!). E, desolado fui contar à minha avó. Mas nesse momento o padre vai á frente do altar pedindo silêncio. Todos se levantam. E minha "nonna" diz baixinho:
– "Depois eu explico porque é que Jesus não está lá. Aliás, você vai ver com seus olhos".
O padre nos convida a sentar e volta-se para o altar, beija a ara e concentra-se. Do mezanino, a voz da soprano inicia o ato da Anunciação, cantando o Magnificat:
“Ave, Maria!
Gratia plena.
Dominus te cum.
Et benedicta tu in mulieribus.
Et benedictus frutus ventres tue Iesus!”
E a missa, com toda a sua pompa e circunstância, segue em frente. E quase 0h, durante a distribuição das hóstias. O órgão soa forte e o coral canta "Glória"! (Gloria in excelsis Deo!), para logo em seguida, junto com o badalar dos sinos, batendo a meia-noite, cantarem "Jesus, alegria dos homens".
Em meio aos sons da música e do badalar dos sinos, da sacristia surgem as irmãs do Sagrado Coração de Jesus – que traziam o pergaminho com a frase "Gloria in excelsis Deo" – e as Filhas de Maria em procissão, carregando a imagem do "Gesú bambino" e o levando até a manjedoura.
Então, sem que vovó me explicasse, eu compreendi que: se Jesus não estava antes na manjedoura era porque não havia ainda nascido. Nascera sim, agorinha a pouco e fora levado para lá, para os seus pais.
Em casa, a "nonna" me explicou toda essa representação do Natal, que há mais de mil anos se fazia, era para homenagear Jesus no dia do seu aniversário…
Ensinou-me que, na véspera do dia 25 íamos à igreja fazer a Vigília, ou seja, numa linguagem mais simples, íamos esperar que Jesus nascesse.
Deixando de lado as lembranças, voltando ao mundo real, sorri e ironizei a mim mesmo, dizendo novamente em pensamento: "No Natal tudo é importante, menos o aniversariante"…
E, lá estava eu na igreja, no casamento do meu sobrinho. Agora um tio-avô, esquecido da maquina digital, sentado ao lado do Presépio explicando à minha sobrinha-neta o porquê daquela ausência de Jesus na manjedoura.
E intimamente agradecendo a ela por me fazer lembrar os doces momentos do meu passado. Não fosse ela, eu teria passado por aquele presépio sem sequer notar a ausência do Gesù bambino. Sem lembrar-me da significação moral e espiritual que emana dele.
E, por assimilação, vendo este nosso tempo de violência e incertezas, vou filosofando sobre a frase do pergaminho que o anjo abre sobre a manjedoura:
"Glória a Deus nas alturas e Paz na terra aos homens de boa vontade!"
Glória!
Um Feliz Natal a todos!
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