A vida de viajante – Jardineira e guarda pó.

Por volta do ano 1960 trabalhava como viajante (caixeiro viajante). Era aquele que vendia em uma viagem e depois recebia as duplicatas em outra viagem. As mercadorias eram transportadas por estrada de ferro.

Tudo era muito diferente: não tínhamos a comunicação que hoje em dia temos, como a internet, fax, celular, sedex, caixa eletrônico nos bancos. Você, para receber um cheque no banco, entregava no balcão, o atendente dava uma ficha e ia conferir a assinatura.

Saíamos para viajar e levávamos duas malas, uma de mostruário e a outra de roupa e, mais a pasta de mão, percorríamos toda a nossa zona, pois o transporte mais usado naquela ocasião era o trem. Você dependia do horário, pois, muitas vezes, para a locomoção de uma cidade para outra, tínhamos de acordar de madrugada para pegarmos o trem.

Nas estradas, ainda sem asfalto, era a popular jardineira (ônibus). Ia o motorista e cobrador. O bagageiro era na parte de cima, e o cobrador subia por uma escada, na parte de trás da jardineira, para colocar as malas dos passageiros (todas revestidas com uma capa). As bagagens eram cobertas por uma lona por causa do pó da estrada. Também tínhamos de usar o famoso guarda pó (hoje jaleco), para não chegar às cidades todo sujo de pó da estrada.

Era uma maravilha chegar a quaisquer cidades do interior. Eram tranqüilas, com as pessoas nas residências sentadas com suas cadeiras nas calçadas. Para telefonar para São Paulo tínhamos de ir ao posto telefônico. Uma ligação levava uma média de dez a doze horas.

Quando chegávamos de trem nas estações, muito movimentadas, para irmos ao Hotel dos Viajantes, pegávamos a famosa charrete, com o motorista falando com tanto orgulho de sua cidade e nos orientando de quem era bom pagador ou mau pagador.

No Hotel dos Viajantes não existia suíte. A gente dormia em quartos onde dentro existia uma pia para a higiene pessoal. O banheiro era coletivo. A diária, completa, com almoço e jantar.

Na calçada em frente do hotel ficavam as cadeiras de descanso para os hospedes, geralmente viajantes. Tinha ocasião em que ficávamos de 35 a 45 dias fora de nossa casa. Tudo naquela época era muito difícil, mas conto esta história porque a vivi, e estou com muitas saudades.

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