No dia 24 de dezembro de 2010 eu voltava para casa após um “surrado dia de trampo”. Como já era rotina, seguia da estação República até a estação Brigadeiro. Enquanto aguardava o metrô após fazer baldeação para a estação Paraíso, observei um homem que aparentava ser um mendigo, pois trajava roupas sujas e velhas, possuía um andar sorrateiro e incerto. De cada usuário que ele se aproximava a pessoa se afastava e negavam qualquer tipo de contato. Até cheguei a pensar "esmolas nesta hora não" (já passava da meia noite)…
O homem finalmente ficou próximo a mim e perguntou:
– “Desculpa te incomodar… (neste momento uma mulher que iria embarcar junto comigo, mudou para a entrada do lado) …mas eu só quero saber se é este metrô que eu pego para chegar na Consolação.”
– “Sim. Este mesmo”; respondi com um sorriso. E passei rapidamente a explicá-lo sobre as próximas estações.
O metrô chegou e entramos no mesmo carro. Ele sentou-se e eu permaneci de pé já pronto para o desembarque próximo à porta.
Mas passado alguns segundos senti uma inquietação me domar. Algo me dizia por dentro "conversa com ele". Envolto num misto de adrenalina e medo me aproximei perguntando se ele estava bem. Ele automaticamente me respondeu que não era mendigo e isto me prendeu a atenção. Rapidamente ele me narrou que já estava vagando pelas ruas fazia oito ou dez dias. E que estava muito triste, em uma depressão muito profunda. Ele falou:
– “Eu tenho família, tenho filho. Minha mãe deve estar super preocupada comigo. Se você ligar para ela, verá que não estou mentindo.”
Automaticamente pensei em ligar para a mãe dele. Não para saber se a história narrada era verdade, mas para contá-la que seu filho estava bem e que o havia encontrado, mas meu celular estava descarregado. Então pedi para ele voltar pra casa. Para pensar no quanto sua mãe estava preocupada, sua esposa com seu filho. Ele retrucou falando que não conseguia se desprender da angustia que o rodeava. Ele havia ficado assim porque emprestou dinheiro a um grande amigo e este sumiu com o dinheiro para outro estado. Dinheiro o qual seria usado para concretizar algo importante na sua vida, mas por confiança acabou emprestando.
Finalizei falando que nada na vida era eterno. Que Deus estava presente na vida dele até mesmo neste momento e que ele deveria sim voltar para casa e reconstruir tudo o que perdeu quantas vezes fosse preciso.
Toda esta conversa ocorreu no trajeto das estações Paraíso-Brigadeiro. Apertei sua mão e desembarquei emocionado e pensativo. Minha vontade era de continuar a conversar com ele, tentar entrar em contato com sua família. Mas ao mesmo tempo me senti aliviado por apenas ter conversado com ele. Aqueles breves minutos de atenção e conversa com certeza lhe causaram uma enorme transformação.
Resolvi postar este momento que vivi para provar o quanto vivenciamos momentos fantásticos da vida sem muitas vezes darmos contar.
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