A última vez que desci a Avenida Lins de Vasconcelos

A minha história de vida sempre teve a ver com o bairro da Penha, onde nasci e fiquei até os dezoito anos, mas a Avenida Lins de Vasconcelos passou a fazer parte significante de minha vida a partir de 1996.

Neste ano, minha mãe, Dona Lourdes, teve diagnosticada uma grave cardiopatia, e ficou internada no Hospital da Cruz Azul e na Beneficência Portuguesa por mais de sessenta dias. Muitas vezes eu descia a Lins de Vasconcelos muito triste, mas sem nunca deixar de curtir aquele trajeto a cada quadra, a cada loja, a cada restaurante. Era como se eu fosse buscar e lutar pela vida de minha mãe fazendo aquele percurso.

Depois de uma cirurgia de três pontes de safena, ela voltou ao nosso convívio, e quanto me valeu essa alegria!!!

Em 1998, nova provação: um problema renal. E lá estava eu descendo a Lins de Vasconcelos. Cada quadra, cada esquina, a pé mesmo, que eu descia lá do Metrô Vila Mariana, confiando em Deus e na medicina dos homens, mais uma vez associava a Lins com uma alegria. Lá estava minha mãe, brava e resistente como uma guerreira, voltando dos braços da morte.

Bem, faz um tempo que estou para escrever nesse espaço, em que encontramos o mais democrático espaço para as nossas cotidianas narrativas.

No dia 10 de maio deste ano, na véspera do dia das mães, as minhas descidas por volta de dez vezes na Lins de Vasconcelos não tiveram um final feliz. Minha mãe, cansada de tantas batalhas, não teve como voltar para o convívio daqueles que tanto amava e que tanto a amavam. E o pior, meu coração já sabia desse desfecho, e a Lins de Vasconcelos ficou tão triste dessa vez…

Talvez eu nunca mais desça a Lins de Vasconcelos; talvez seja esta a minha última e derradeira crônica aqui neste espaço…

De qualquer forma, deixo os meus sinceros agradecimentos à equipe médica do Hospital Cruz Azul, ao pessoal da UTI, que tratou a minha mãe com a maior dignidade e, tenho certeza, da melhor forma possível.

Sempre vou guardar, em meu coração e minha mente, tantos momentos difíceis, que fazem parte da vida de todos nós. Com certeza, a Avenida Lins de Vasconcelos e o Hospital da Cruz Azul serão sempre lembranças recorrentes para mim, na minha anônima e cotidiana história, que se mescla a milhares de histórias semelhantes daqueles que aqui nasceram, viveram, amaram e cumpriram seu destino com dignidade!

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