Como faço todas as manhãs, entre 6h e 7h, vou andar meus 45\ 60 minutos em uma praça do Parque Continental, zona Oeste de São Paulo, divisa com o município de Osasco. Alamedas e ruas arborizadas. Pouquíssimo movimento de carros, sendo apenas os moradores que se dirigem aos seus locais de trabalho. O arvoredo é composto das mais variadas espécies e foram plantadas ou aproveitadas há mais de 40 anos pela construtora, na época a Continental, em um terreno do antigo Frigorífico Wilson. É, portanto, local ótimo para esse exercício matinal.
O local é utilizado para esse fim o dia todo, por muitos moradores do Parque e, no verão, à noite, tem sempre pessoas, cujos horários de trabalho não permitem andar de dia. Um bom número de aficionados, os mais jovens, correm. Eu ando.
Nestes passeios quase todos se cumprimentam, às vezes param para um papinho rápido pois, de tanto se encontrar o ser humano cria uma empatia, sempre coroadas por um “bom-dia” ou “boa-tarde” mas, como disse acima, “quase”, pois alguns ou algumas não querem saber de cumprimentos.
Como faço o passeio nas primeiras horas da manhã, é comum encontrar as domésticas que chegam para o trabalho, a pé, desde a rodoviária da Vila Yara. Boa parte delas cumprimenta e atende aos cumprimentos dos que passeiam, na mais prosaica das atitudes. Um dia destes, ia por uma das ruas e ouvi a voz de uma mulher falando bem alto no celular. Ela vinha vindo em sentido oposto a mim e pude ouvir parte da sua conversa, pelo celular, que era com sua mãe, ela citou várias vezes “mãe”, quase aos berros, no rápido encontro comigo.
Segui meu caminho em uma marcha compatível com minha faixa etária. Cheguei ao ponto de onde costumo voltar, reiniciei meu último trecho de volta do dia. Vi que a senhora, morena, de uns 30 anos mais ou menos, com um vestido bem simples e pobre, que deduzi ser uma doméstica, continuava a falar no celular bem alto e andava bem devagar, naturalmente para terminar a conversa antes de atingir a casa da patroa. Foi fácil chegar perto dela, ia seguir em frente quando percebi que ela havia terminado de falar com sua mãe. Como já ia passando, ela, toda sorridente, um passo atrás de mim, falou em voz alta e bem alegre:
“O senhor ouviu? Que beleza, falo com minha mãe todos os dias, no Rio Grande do Norte, logo que saio de casa e à noite, antes de dormir, com meu celular, sem gastar nada, sendo da mesma empresa prestadora de serviço, falo quanto tempo quiser. Só preciso colocar créditos. Que alegria e felicidade em poder falar com minha mãezinha querida, sei como ela está, ponho ela a par de todos os acontecimentos aqui. Isso compensa a distância que existe entre nós. Minha querida mãezinha está tão alegre e feliz que o senhor nem vai acreditar”
Despedi-me dela com um forte sentimento de alegria, também, por encontrar um exemplo de amor filial tão belo e puro ao confrontar com noticiários diários de filhos matando pais, mães matando filhos, irmão contra irmão, pais matando filhos e avós…
Ali estava a mais pura e bela das manifestações em repartir sua alegria e felicidade, com um desconhecido, ao poder falar com sua querida mãezinha.