A saudade sempre presente

Acho que dizer "saudade sempre presente" é redundância, não? É que algum fato marcante pode sempre trazer de volta uma saudade guardada, adormecida, mas sempre presente. Pois foi o que me aconteceu ao acompanhar os noticiários sobre a tragédia da Linha 4 do metrô. As principais ruas envolvidas nesta tragédia – Capri e Gilberto Sabino -fazem parte de um período feliz da minha vida.<br>Recém-casada, fui morar em um pequeno prédio de três andares, na Rua Gilberto Sabino, cujo terreno comprido fazia fundos com a Rua Capri, onde ficavam as garagens e, em uma delas guardávamos nosso primeiro carro, um Fusca verde claro. Neste predinho nasceram meus três filhos – Pedro Eduardo, o mais velho e as gêmeas Roberta e Luciana. Meu marido iniciava carreira docente na Universidade de São Paulo. <br>Passeávamos com os carrinhos de bebê pela Rua Gilberto Sabino, indo até o final, em direção à Rua Sumidouro, em que havia um quartel do Corpo de Bombeiros. Na Rua Gilberto Sabino morava um jogador de futebol do Palmeiras, famoso em sua época, de nome Valdemar Carabina.<br>Fazíamos nossas compras na Rua Theodoro Sampaio, onde, próximo ao Largo de Pinheiros havia um Mercado Municipal bem sortido, onde aos poucos fizemos amizade com os proprietários das barracas, que nos atendiam sempre de bom humor e onde todos se conheciam pelos respectivos nomes. Havia ainda, na Rua Theodoro Sampaio, boas lojas de roupas e calçados, de roupas infantis, cama, mesa e banho e lojas de tecidos, porque ainda se costurava muito em casa.<br>Na Igreja do Largo de Pinheiros batizamos nossos filhos e ela ainda lá está, marcando com sua presença forte e rija um local que parece fadado ao desaparecimento.<br>Pelos fundos do prédio chegávamos à Rua Capri, de terra batida, onde as casas ficavam um pouco longe uma das outras e que, onde hoje está a Estação de Trens havia um terreno grande, ainda ao estilo dos quintais de interior, com horta caseira, algumas galinhas e crianças brincando. Na Rua Capri moravam o sr. Manoel, que tinha um barzinho na frente de sua casa (ainda sinto o sabor dos deliciosos bolinhos de bacalhau), dona Rosa, sua esposa e o pequeno Nelito, filho do casal e que era a grande paixão de dona Rosa, a quem dirigia todos os seus mais belos sonhos.<br>Dona Rosa lavava roupas para fora, inclusive para mim e com ela aprendi muito sobre a vida, sobre gente, sobre cuidados que ela trouxera do seu querido Portugal. Este casal de portugueses tomou-se de muita estima por mim e por meus familiares, bem como nós por eles e procurávamos nos atender em todas as nossas necessidades, mesmo sem estarmos nos visitando a todo momento. Muitas vezes dona Rosa tomou conta de meu filho – que brincava com o Nelito – para que eu pudesse ir trabalhar, já que meus pais moravam longe, no Alto da Moóca. <br>No predinho tive vizinhos, que também não esqueço – sr. Amadeu, dona Eurídice, sua filha Maria Rosa e suas netas Eliana e Leila, que gostavam, principalmente de pajear as gêmeas, grande sensação!<br>Imagine-se o quanto devo a esta gente boa, amiga, prestativa, desinteressada, nos cuidados com meus filhos. <br>As transmissões da tragédia da Linha 4 fizeram-me rever o predinho da Gilberto Sabino, a Rua Capri – tão modificada e agora parece que nem existe mais e trouxeram à tona esta saudade adormecida deste momento de minha vida. Mas, parodiando a música de Roberto Carlos … esta é a saudade que eu gosto de ter, só assim sinto vocês bem perto de mim outra vez.