A saga de um ferroviário

Giuseppe Grassi imigrante italiano aportou no Brasil em 1896, vindo da Itália na província de Salerno na região da Campânia na cidade de Pellezzano, como o próprio nome de Casale Pellezzano intimamente relacionado à Locum Pellezanu, a Rocca, onde aparece a primeira igreja, parte integrante do lugar, chamado a Igreja do Espírito Santo, definidos na Ordem Agostiniana de Colloreto, próximo de Casalbarone, Coraggiano e de São Nicolau. Veio para o Brasil com a esposa Maria Magdalena onde teve três filhos: Lucrecia, Jacyntho e Madalena.

O Jacyntho, o filho do meio, nasceu em São Paulo, em 1901 na Rua das Flores, ao lado da Praça Clóvis Bevilácqua, junto da igreja Nossa Senhora do Carmo. Tendo perdido a esposa Maria Magdalena em 1905 durante um parto mal sucedido o Giuseppe retornou para a Itália na comuna de Pellezzano na província de Salerno onde moravam seus sogros e lá se casou novamente com Nicolina Rocco, irmã mais nova da falecida, onde nasceram dois outros filhos: João e Afonso, ambos italianos.

Giuseppe Grassi, com a nova esposa e agora com cinco filhos, três brasileiros e dois italianos, resolveu retornar ao Brasil. Dessa união estável nasceram mais quatro filhos todos eles agora já brasileiros. E foi nessa família numerosa de nove irmãos que o Jacyntho foi o irmão mais velho de todos a trabalhar como auxiliar de telegrafista na São Paulo Railway Company (SPR).

Novamente em São Paulo, o Giuseppe Grassi montou a sua sapataria no Centro da Capital paulista, na Rua da Conceição entre as Ruas Mauá e Avenida Senador Queiróz, mas evoluiu rapidamente, tornando-se um próspero comerciante de sapatos e armarinhos em geral e abrindo logo em seguida uma segunda loja no mesmo ramo de atividade na região do Brás. Foi nessa numerosa família, em um sadio ambiente de trabalho, compreensão e amizade fraterna, passou o Jacyntho os primeiros anos de sua meninice. Garotinho ainda, com apenas oito anos de idade já ajudava o pai na loja de sapatos e ia diariamente levar a mochila nas costas carregando as pesadas ferramentas e as formas de reformas de calçados até a loja do Brás. Era um trabalho árduo para um menino de apenas oito anos de idade, porém, não reclamava do serviço.

Depois da volta da Itália, em 1911 fez o quarto ano primário no Grupo Escolar Prudente de Morais, onde também iniciou o curso ginasial, mas não chegou a concluir. Interrompeu os estudos para trabalhar nas lojas da família. O Jacyntho lembrava também, quando nas suas horas de folga de sua vida de menino, costumava perambular pelo Centro de São Paulo, que na época não era o São Paulo de hoje, passando pelas chácaras de plantações de chá e pelos bosquezinhos de árvores frutíferas, indo até buscar água no córrego Anhangabaú que naquele tempo serpenteava pelo vale.

Hoje, das chácaras de chá, só resta o nome do viaduto, o córrego outrora descoberto hoje está lá, canalizado, debaixo do asfalto que é pisado diariamente por milhares de transeuntes. Naquela época a madrasta recebia em sua loja na Rua da Conceição diversas pessoas ligadas a ferrovia, entre elas a do Nicolau Alayon, e a do Baltazar Fidelis na época superintendentes da São Paulo Railway (SPR) que, através de um pedido feito a eles que eram fregueses da loja do Giuseppe Grassi, conseguiu um emprego como aprendiz de telegrafista no então moderno telégrafo Morse. No início, durante um ano inteiro sem nenhuma remuneração específica, tinha que treinar o código Morse.

A aplicação nos estudos para a sua formação como aprendiz de telegrafista fez desabrochar no Jacyntho a sua vocação ao serviço da transmissão e recepção dos telegramas que eram na sua época de extrema prioridade nas comunicações entre várias estações no entorno da linha da São Paulo Railway Company (SPR) de Santos até Jundiaí. Durante o estágio, em um domingo friorento e chuvoso foi convocado para ir em um trem de carga até Botujuru, na época uma pequena cancela ferroviária no meio da mata onde havia um funcionário morador dos arredores da localidade afim de substituí-lo no serviço do desvio dos trilhos quando da passagem das composições que iam e vinham do interior do Estado.

Para um menino ainda, nos seus 16 anos de idade, era um trabalho de muita responsabilidade, porque não permitia nenhuma falha, caso contrário, poderia causar sérios acidentes de tráfego. Com uma pesada capa de chuva, ficou ali, estacionado, solitário, no meio da mata cerrada entre as fazendas da Cachoeira e Borda da Mata onde antigamente era Belém da Serra, hoje Francisco Morato, trabalhando até as 18h da tarde, quando deveria ser substituído pelo titular do posto. Na volta para São Paulo, como ali não era parada de trem, apenas uma cancela ao lado da linha, teve que sinalizar com uma lanterna preta com a luz amarela de atenção ao maquinista, para diminuir a velocidade do trem e poder embarcar no último vagão de carga dos correios e voltar para a Estação da Luz.

Na agência da cidade, na Rua Anchieta, próximo do Pateo do Collegio, havia uma filial dos telégrafos e em determinada época assumiu o compromisso de trabalhar nessa agência durante dez anos, como encarregado do telégrafo. Agora, já mais experiente, voltou a trabalhar na Estação da Luz, como chefe geral do telégrafo Morse e do tráfego. Sua vida foi pautada pela honestidade de princípios, amor e dedicação ao trabalho que, apesar dos tempos bicudos, não havia hora para entrar no serviço e não havia hora para deixar o serviço. Antes da lei do Eloy Chaves, não tinha horário específico de trabalho, ou seja, não havia nem começo e nem fim. Trabalhava no regime de escravidão, porque as leis trabalhistas ainda não tinham sido editadas; um detalhe havia na ferrovia: homens com idade avançada de 89 anos trabalhando ainda, porque não havia disciplina, nem trégua e nem regras trabalhistas, muito menos da implementação da seguridade social, obrigando as pessoas a trabalharem até morrer.

Era até então um sistema escravagista. Foi durante esse período que o Jacyntho se beneficiou com os demais companheiros da ferrovia da lei Eloy Chaves que foi a base da previdência social brasileira que hoje beneficia diretamente 72 milhões de cidadãos. A lei foi publicada em 24 de janeiro de 1923 e consolidou a base do sistema previdenciário com a criação da Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Ferroviários. Portanto, quando o Jacyntho se beneficiou dessa nova lei ele estava com 22 anos de idade e já trabalhava na Estrada de Ferro São Paulo Railway desde 1916. Eis aqui um breve histórico da vida de meu falecido pai, que com trabalho, honradez e dignidade através dos trilhos dos caminhos de ferro constituiu e criou a sua família com denodo e determinação. A todos os ferroviários a minha admiração. Ao meu saudoso pai, a minha eterna gratidão.

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