A sabedoria de minha mãe

Ah! Agora vamos falar um pouco de minha mãe. Maria era seu nome, com pouco estudo, mas uma pessoa muito sábia. Só estudou até o segundo ano, e ainda assim por que foi promovida pela professora a passar para o segundo ano, pois era muito adiantada para o primeiro ano, precisou parar os estudos, pois tinha que trabalhar (é naquela época a criança não era proibida de trabalhar não). Então ela foi ser babá de uma família de japoneses na Fazenda Monte Mor (perto de Campinas) e acabou aprendendo uma porção de palavras em japonês. Gostava muito de ler e de aprender, lia tudo que lhe caia em mãos.

Hoje, morando no interior de São Paulo, vejo o quanto ela foi importante em transmitir seus conhecimentos sobre plantas, árvores, remédios caseiros, cuidados com higiene, e muito mais. Eu que sempre vivi em São Paulo (capital) e sempre ouvi o pessoal do interior tirar sarro dos paulistanos nos chamando de "caipiras da capital ou caipiras de São Paulo”, por não conhecer as coisas da fazenda ou da roça. Fico espantada quando, ao fazer minhas caminhadas aqui, percebo que a maioria das minhas companheiras não teve o privilégio que eu tive. Reconheço quase todas as árvores, frutas, flores, pra que serve tal folhagem, se é fruta ou não.

Outro dia em me dei conta dessa diferença: minha mãe, que gostava de aprender, também gostava de ensinar o que havia aprendido. E ela transmitia tudo de uma forma tão simples, que você nem percebia que tudo isso ia ficar para sempre em sua mente. Dias atrás uma amiga minha veio falando que só agora aos 60 anos é que tinha aprendido como lavar os cabelos, que o cabeleireiro tinha dito:
– "Quando você passar sua mão no cabelo molhado e ele fazer barulho aí sim estará
totalmente limpo".

Dei risada, porque quando era menina minha mãe falava:
– "Só sai do banho quando seu cabelo estiver assobiando, cantando" – (é aquele barulhinho quando passamos a mão pelo cabelo molhado, se não fizer barulhinho, ainda está oleoso).

Ah, ela também me ensinou a ter honestidade. Quando chegava a época do Natal "seu" Luizão o dono da venda da esquina das ruas Itacoarati e 5 de Julho, comprava vários sacos de estopa cheios de castanhas, que ficavam expostas ao lado de fora do balcão para o pessoal ver e comprar. Como todas as crianças faziam, fui comprar pão e um litro de leite (em garrafa de vidro mesmo) e como todas as crianças faziam, enchi os bolsos da blusa com castanhas. Quando voltei para casa a minha mãe perguntou:
– “O que é isso nos seus bolsos?”
– “Castanhas!”
– “Quem te deu?”
– “Eu peguei!”
– “Então volte lá na venda e fale para o seu Luizão que está devolvendo o que você pegou!”
– “Eu não! Todo mundo pega”.

Resultado: tive que voltar a venda e falar (com o rosto todo vermelho de vergonha) para o seu Luizão do jeitinho que ela mandou, pois estava me acompanhando de perto para ver se eu faria isso mesmo. Uma vez só e lição aprendida por toda a vida.

Com muito trabalho e economia juntamente com meu pai conseguiu formar as três filhas (ela cuidava de uma Loja de armarinhos no bairro) Obrigada Mamy! Ainda hoje aplico o que me ensinaste, com muito orgulho de ser a Julinha da Dona Maria. Sei que Deus a acolheu com muito amor!

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