A Rua Itapicuru de meu tempo

Perdizes já existia desde a metade do século XIX, segundo assim informa o historiador Antonio Egydio Martins em seu livro "São Paulo Antigo – 1554 a 1910". O bairro foi assim denominado porque lá vivia Joaquim Alves Fidelis, garapeiro, casado com Dona Maria Antonia de Santa Rita e padrasto de Dona Teresa de Jesus Assis, que, naquela época, dedicava-se à criação de um grande número de perdizes nos fundos do quintal da casa – daí advindo o nome do bairro. Justificava-se a criação em cativeiro porque, desde 1807, era rigorosamente proibida a caça dessas aves e a venda de seus ovos em um raio de quatro léguas da cidade.

Somente em 1876 é que foi erigida uma capelinha sob invocação de Nossa Senhora da Conceição, que passou a ser conhecida como Capelinha da Santa Cruz de Perdizes. O bispo de São Paulo, Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, com base nas informações do Vigário da Consolação, Cônego Eugenio Dias Leite, em 17 de junho de 1891, autorizou a celebração de missas no local. Em 1902 foi pedida licença para demolição da capela original, em face da ultimação do templo novo, de maior porte e conforto conforme o noticiado em ofício do vigário de Santa Cecília, o Cônego Dom Duarte do Leopoldo e Silva. Nesse documento já se assevera que a nova capela iria “Atender às necessidades do culto naquele já florescente e popular bairro” (Livro do Tombo da Paróquia de Santa Cecília, fls 43, citado no livro "Perdizes – História de um Bairro", de José Aranha de Assis Pacheco, volume 21, da série História dos Bairros de São Paulo, editada pela Prefeitura Municipal de São Paulo em 1983).

Nas últimas décadas do século XIX, consoante nos ensina Ernani da Silva Bruno, baseado na informação de Nuto Sant´Anna, a cidade se expandiu "formidavelmente" do Bexiga a Barra Funda, projetando-se para o Pacaembu, Avenida Paulista, Campos Elíseos, Perdizes, Água Branca e Lapa.

A implantação da estrada de ferro, assim como das primeiras indústrias, deu novos contornos à, até então deserta, zona oeste. Os terrenos do bairro de Perdizes eram havidos como de domínio da municipalidade. Destarte, em 1877, Dona Engrácia do Prado, João Benedito Barbosa, José Leite da Costa, Francisco de Paula Penha, Antonio e Manuel Sacramento apresentavam petitório à Câmara Municipal pedindo datas de terrenos no Largo da Capela de Nossa Senhora da Conceição e Santa Cruz, no lugar denominado Perdizes, Estrada da Agoa Branca (Assis Pacheco, op. citada).

Foram então surgindo as ruas: das Perdizes, depois Turiassú, Rua Tabor, ao depois Cardoso de Almeida, em louvor de José Cardoso de Almeida, deputado, secretário da Justiça e chefe de polícia, que residia em uma chácara na atual Rua Caiubi. Pinto Gonçalves, em homenagem a João Pinto Gonçalves, pioneiro em loteamentos; Monte Alegre, em homenagem a José da Costa Carvalho, Marques de Monte Alegre, político influente em seu tempo; Homem de Mello, em homenagem ao médico Claro Marcondes Homem de Mello, diretor do hospital do Juqueri e da Casa de Saúde Homem de Mello; Água Branca, mais tarde Francisco Matarazzo; e Vista Alegre, constante dos mapas da região desde 1896 e 1901. Esta última rua passou a denominar-se, mais tarde, Rua Itapicuru.

Nasci no bairro da Liberdade, na Rua Ida. Morei na Barra Funda, (Brigadeiro Galvão, 45); em Perdizes, inicialmente na Rua Marta, nº. 5, próximo do largo Padre Péricles; e depois, quando meu pai construiu um "palacete estilo mexicano" na Rua Itapicuru, 648, mudamos para lá por volta de 1938. O quarteirão situa-se entre as ruas Ministro Godói e Franco da Rocha. Com minha família, lá residimos até l946, quando a casa foi vendida para a família de Seu José Rendeiro, português.

Em seguida, moramos em diversos endereços, nas ruas Dr. Franco da Rocha (números 61, 63, 334 e 356), Ministro Godói (432 e 1157), mas sempre ao redor da Rua Itapicuru (onde voltei a morar por último até 1958, no 551), que se tornara a rua de minha "turma".

Foram minhas vizinhas famílias notáveis, que ganharam projeção nos anos seguintes, e a garotada da época, amigos da puberdade e adolescência, se tornaram homens importantes e conhecidos.

Na esquina de Itapicuru com Ministro Godói, morava a família do Desembargador João Batista de Arruda Sampaio, que no fim da década de 50 foi Secretário da Segurança Pública. Pai de duas meninas, que foram minhas contemporâneas no Externato Assis Pacheco, localizado então na confluência da Rua Itapicuru e Cardoso de Almeida, e de um rapaz, pouco mais velho do que eu – Plínio de Arruda Sampaio, mais tarde promotor público, político atuante até hoje, assessor do Ministro Paulo de Tarso e do Governador Carvalho Pinto. Ele foi meu contemporâneo no Ginásio Perdizes, já no ano de 1945.

Próximo da mesma esquina residia o senhor Barone Mercadante, dono de uma rede de cinemas e prócer do Partido Social Progressista, sendo vizinho durante algum tempo do Maestro Jarbas Tupinambá.

Defronte a minha casa residia o Dr. Angelo Zanini, de raízes em Serra Negra, político também do PSP, deputado estadual e Secretário de Estado. Um de seus filhos, Carlos Henrique, foi o mais jovem instrutor de vôo de aviões comerciais formado nos Estados Unidos, comandante das Aerovias Brasil e da Real. Mais tarde, piloto de helicóptero da Pirelli, herói no incêndio do edifício Andraus.

Do lado direito de minha casa residia Dona Alice Garcia de Almeida, de conhecida família de Tietê, mãe do Dr. Cantidiano Garcia de Almeida, Desembargador e Presidente do Tribunal de Justiça, que ocupou o cargo de Governador do Estado durante um curto período.

No lado esquerdo morava uma família de Minas Gerais, descendentes do Presidente Delfim Moreira, eleito vice e que substituiu Rodrigues Alves, presidente reeleito, em razão de seu falecimento antes da posse, por volta de 1920.

Ainda defronte minha casa, vizinho do Dr. Zanini, morou o deputado federal Rio Branco Paranhos, que só era visto esporadicamente porque passava a maior parte do tempo no Rio de Janeiro. Ao seu lado residia a família de Thomas Corbet, um americano, e seu filho Tommy.

Duas casas à frente, do lado ímpar, residia o Dr. José Fajardo, sua esposa Dona Denda e os filhos Zezo (José), Tuy (Arthur) e Carlos Alberto. O Zezo morreu ainda menino, o que impressionou a todos, pois não conhecíamos, até então, a presença da morte. Tuy tornou-se um arquiteto de muitos méritos e faleceu precocemente, e o caçula – Carlos Alberto Fajardo – é um artista plástico de muito sucesso. O Dr. Fajardo era como um segundo pai da meninada, gostava de promover tertúlias lítero-musicais e, durante algum tempo, também foi Secretário de Estado do Trabalho.

Eram vizinhos seus a família Setaro, do casal Seu João e Dona Edite, donos de uma retífica de motores com os filhos Ademar, Hélio, Edi e Waldir. Este último foi genro do empresário George Gazale, célebre por sua amizade com o Presidente João Figueiredo e dono do restaurante "Au Liban", da Rua Pamplona e depois da Nove de Julho. Waldir, que era o "benjamim" da turma, anos depois abriu seu próprio restaurante, a filial do "Dalmo" do Guarujá. Em um dia em que foi retirar o pagamento de seus funcionários do banco, foi assaltado e morto por ladrões.

Pegado à casa dos Setaro, residia a família do Luiz Carlos de Faria Lemos, o "Caio", e de sua irmã Maria Lúcia. Ele era o galã das meninas, bem apessoado e de físico avantajado. Foi um dos primeiros jogadores de voleibol que vi atuando no time do Ginásio Perdizes nos anos 40. Ele se casou em Itapira e não mais nos encontramos.

A seguir, era a casa dos primos do Caio, Luiz Edmundo e sua irmã Maria Cecília, filhos do Dr. Floriano Augusto Soares de Souza e de sua esposa, Dona Nair Correa Soares de Souza. O Dr. Floriano era médico e oficial do cartório do 10.o Ofício Cível da Comarca da Capital. Era amigo particular de Ademar de Barros desde a faculdade de medicina, por isso mesmo ocupava o cargo de secretário geral do Partido Social Progressista. Luiz Edmundo formou-se em Direito na PUC-SP e foi advogado da Prefeitura de São Paulo até aposentar-se, e hoje já "subiu" para a 3ª. Entrância. Era um de meus melhores amigos.

Defronte a casa deles, do lado par, morava a família do escrivão de polícia Paulo Leandro com um filho do mesmo nome, meu colega de primário, de alcunha "Paulinho", que depois tornou-se delegado de polícia, hoje aposentado.

Ao lado de sua casa, saltando uma residência, morava a família Tessitore; uma casa em baixo e outra em cima. Na de cima moravam os irmãos Breno, Horus, Osíris e Togor – todos já se foram… O último seguiu carreira militar e reformou-se coronel, tendo sido assessor do Secretário da Segurança Pública Erasmo Dias, na coordenadoria da CIOP. Na casa debaixo moravam Vicente Gilberto Tessitore e suas irmãs loiríssimas Lili e Déa.

Do outro lado da rua, lado ímpar, pegado à casa de uma coleguinha de escola – Iramar Colpaert -, residia nosso vizinho mais conhecido do grande público: Geraldo José de Almeida, um dos melhores locutores esportivos que o rádio já teve. Ele gostava de fazer festas em sua casa quando convidava os astros do futebol – não só do São Paulo F.C., de que era ardoroso torcedor, mas também gente do Corinthians e do Palmeiras. Todos os anos, nas festas juninas, soltava um balão em forma do distintivo de seu clube do coração.

Na mesma Rua Itapicuru, próximo da Rua Traipu, residiu o "speaker" e jornalista Pedro Luiz, igualmente um dos mais completos narradores esportivos de todos os tempos. No mesmo trecho da rua morou, anos mais tarde, o árbitro de futebol Arnaldo César Coelho – na atualidade, comentarista esportivo da Rede Globo.

Ao se mudar, Geraldo José de Almeida deixou morando em sua casa seus primos Antomar e Edson de Carvalho Viegas – este, meu colega do Assis Pacheco e que mais tarde ingressou na carreira de delegado de polícia.

Na altura do número 700 do lado par, residiu durante muitos anos a família Monteiro, do Seu Joaquim, dono do Bar Cristal, ao lado do Morais do filé com agrião, na Praça Júlio de Mesquita, e de Dona Luiza, falecida quase centenária. Eram pais de Giselda Monteiro, menina de olhos verdes que todo mundo queria namorar, Nilda e Newton Carlos. A mais velha casou-se com o filho do dono do Instituto de Ciências e Letras Alfredo Pucca (?). Nilda formou-se em direito na Católica e casou-se com o advogado Roberto Calife, que foi sócio de Samir Achoa. Newton formou-se em engenharia mecânica no Mackenzie, indo estagiar na empresa A. Tonoli do Brasil, filial multinacional de mesmo nome, de sede em Milão, indústria metalúrgica de metais não ferrosos. Acabou sendo seu único emprego na vida; subiu rápido e em poucos anos era presidente da empresa e depois presidente das filiais da América. Figura perfeita do "self made man", de muito sucesso – aliás, merecidamente.

Na esquina da Itapicuru com Franco da Rocha havia um empório ("venda" como chamávamos na época) de que era dono o Seu Affonso, um português. Depois de alguns anos, o estabelecimento foi vendido para o senhor André Terra que, segundo constava, vinha de Ribeirão Preto para a capital. Terra e sua esposa Dona Aninha tinham dois filhos: João Carlos e Ephigenia. O menino passou a ser o "Terrinha" e o apelido ficou até hoje. Solteirão, agora aposentado da empresa Fichet-Dumont, vive das recordações das "aventuras" da turma da Itapicuru.

Hoje a "nossa" Rua Itapicuru se tornou, de fato, um "corredor comercial", e as residências foram sendo adaptadas para essa mudança. Todavia, gosto de passar por lá de vez em quando porque a velha casa de meu pai, que tanto esforço e trabalho lhe custou, continua lá, praticamente preservada em seu aspecto original e servindo de moradia para uma filha do mesmo comprador de 51 anos atrás!

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